Editorial
 Isabelle Lafarge, 30 de abril de 2017

Migração é um tema que se encaixa bem em nosso e-journal, esse espaço aonde transitam ideias psicanalíticas de todos os continentes. Para nós analistas, o lugar do estrangeiro e do estranhamento é característico da revelação do inconsciente e nos sensibiliza de modo particular.
E o caráter extremamente atual dos novos movimentos migratórios nos compele – ainda mais- a compartilhar nossas experiências.
 
Aqueles que partem
 
Nesta edição diversos autores que tem o exílio em sua carne e história nos trazem textos repletos de emoção.  
 
A experiência pessoal de migração permite distinguir as pulsões de vida e morte. A esperança de uma vida melhor, a abertura a novas perspectivas, encontrar-se com uma nova cultura e língua, se chocam com as desilusões, a cruel perda de raízes, as perdas irrecuperáveis e os sentimentos de humilhação e revolta.
 
Estas rupturas na continuidade da vida são frequentemente necessárias aos mecanismos de dissociação e fragmentação para confrontar a vergonha, o medo, a confusão. A tristeza se torna um afeto congelado quando o luto não se concretiza. E a transmissão do trauma impacta os migrantes durante muitas gerações.
 
Aqueles que enxergam a chegada
 
Quando a história pessoal não é posta em evidência, em primeiro plano, os autores insistem com frequência na necessidade de identificação com o migrante. Esta cópia, este outro que nos constitui e que gostaríamos de ignorar.
 
Pensemos em nosso estado de espírito ao voltarmos de uma longa viagem, nas delícias de voltar para casa, e imaginemos nunca mais sentir essa alegria. Imaginemos que a guerra ou a fome nos expulsem de nosso local de origem, de nossa casa, de nossos hábitos, de nossos conhecidos. O caráter insustentável destes pensamentos nos faz afastá-los de nossa mente e compromete nossas capacidades de empatia e identificação. Somado a isso, o espetáculo dos grandes êxodos transmitidos ao vivo em nossas telas enfraquece ainda mais nossa capacidade de nos identificarmos com a vida deste nosso próximo, nosso vizinho, o imigrante.
 
Os líderes populistas em busca de afirmação exploram a crise dos migrantes para desviar a atenção de seus próprios abusos e de sua corrupção. Eles reforçam mecanismos de clivagem e de projeção com imagens e artifícios de propaganda. Geram assim um clima de angústia e incerteza no qual eles facilmente se apresentam como os salvadores, prometendo uma volta a um mundo simples e seguro, um paraíso perdido.
 
O lado de Eros
 
O trauma acarretado pela imigração pode ser, no entanto, uma fonte de renovação para o Eros. Ao reconhecermos que o exílio nos constitui, a solidariedade e a hospitalidade passam a ser como uma segunda natureza; uma oportunidade para o indivíduo e as coletividades darem um novo impulso às culturas. Isso exige um esforço de reintegração de nossas projeções, um esforço para superar os processos regressivos de grupo e de tolerar as ambiguidades e as incertezas.
 
O psicanalista na pólis ajuda a compreender o que a migração suscita em nós. Ao mostrar os mecanismos de defesa que adotamos para diminuir a angústia, ele permite decodificar o papel da mídia e desconstruir a instrumentalização política que é feita da migração. Ademais, ele pode auxiliar os profissionais, estabelecer vínculos com os migrantes e oferecer uma contenção psíquica aos sofrimentos.
 
Conheça as reflexões sobre migração produzidas com talento e profundidade nestes artigos que aqui temos o prazer de publicar.