Editorial
Marina Bilenky, 13 dezembro de 2019 

Adições
 
Ao trazer as Adições para o centro do debate, nosso e-journal Psychoanalysis.Today possibilita um rico passeio por esta temática, com reflexões e questionamentos que partem de experiências psicanalíticas as mais diversas. 

Tratar desta questão é fundamental no mundo contemporâneo. O comportamento aditivo nunca esteve tão presente em nossa vida cotidiana. A medicalização excessiva promovida pela psiquiatria e a facilidade de aquisição de drogas lícitas e ilícitas provocou um aumento vertiginoso de dependentes químicos e gera graves problemas sociais ao redor do mundo.  O debate se aprofunda quando levamos em consideração que as adições não se restringem ao uso de substâncias. Elas estão ligadas a inúmeros outros objetos e experiências, que visam melhorar a performance diante de solicitações cada vez mais exigentes e constituem tentativas de superar o mal-estar causado por uma cultura que estimula a perfeição e dá cada vez menos espaço ao erro, à dúvida e ao sofrimento próprio do ser humano. 

As adições estão presentes nos mais variados comportamentos, como hábitos alimentares, exercícios físicos, sexo, hábitos de consumo, uso de celular, redes sociais, séries de TV que “viciantes” e muitas outras possibilidades veiculadas pelo meio social a que cada indivíduo está vinculado. 

Em nossa contemporaneidade, como bem escreve Noaille, “a proscrição torna-se prescrição” e a referência à adição deixa de ser o anúncio de uma ameaça para se tornar um critério de sedução que valoriza diversos objetos da economia de mercado. A impossibilidade do uso da palavra para significar os excessos ou vazios da alma, é vista como produtora de comportamentos onde as adições prevalecem. 

Para Durand, qualquer experiência da vida, inclusive os tratamentos psicanalíticos, podem se tornar aditivos. O ser humano pode se escravizar diante de qualquer aspecto de sua existência, pois o motivo da adição, segundo a autora, seria a proteção ilusória  que o tirano interno oferece para a abolição da dor psíquica interna. 

Catz, ao discorrer sobre o tema das tatuagens, acentua o papel dessas inscrições no corpo como “marcas simbolizantes”. Ela sublinha a necessidade do trabalho psicanalítico para dar espaço ao processo de simbolização de angústias intensas e que funcione como contraponto e alternativa à solução aditiva.

A questão da dependência perpassa os diversos artigos dessa edição. Gurfinkel aborda a questão da dependência aditiva como decorrência do desenvolvimento paradoxal do ser humano, que parte da dependência vertical infantil para a interdependência horizontal do adulto e os percalços que se encontram nesse caminho.

Kaul faz uma releitura de Madame Bovary para tratar do tema da compulsão a devanear e do apetite insaciável de acumulação de objetos proto-estéticos, com o objetivo de criar um mundo onipotente onde o sujeito se defenderia do desamparo, da perda e da dor. 
 
Tintner e Juliano desenvolvem o tema a partir da clínica e das dificuldades encontradas no tratamento psicanalítico com pacientes adictos. Tintner descreve o caminho e as dificuldades encontradas no tratamento de uma paciente que precisava perder peso após a cirurgia bariátrica. Juliano, ao tratar pacientes adictos a substâncias que alteram a mente, descreve o trabalho delicado de manter o vínculo, lidar com a transferência e a contratransferência específicas e os desafios que permeiam esse tipo de tratamento. 

Ainda sob o vértice da clínica, Lunn trata das dificuldades encontradas no tratamento psicanalítico com pacientes que sofrem de anorexia nervosa. O artigo aborda os diferentes significados do desenvolvimento desse tipo de sintoma.
 
Tatarsky, em entrevista concedida à Adrienne Harris, aponta para a mudança conceitual que vem ocorrendo dentro do campo das adições: de uma doença com base biológica, cujo tratamento é apoiado na ideologia da abstinência, para a ideia de que o paciente adicto pode se implicar com o processo terapêutico que busca dar significado aos sintomas. Seu trabalho, de redução de danos, sublinha o papel fundamental que a psicanálise ocupa nesse modo de atuação. 
 
Aproveitem a leitura e o vídeo!