Denegações Psíquicas

Ms. Nilofer Kaul
 

O autor utiliza Madame Bovary, de Flaubert, para explorar um mundo de objeto aditivo e sua manifestação na forma de um apetite insaciável por acumular objetos protoestéticos.

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Em retrospecto, acho que o trabalho sobre o autismo, com a elaboração do conceito de dimensionalidade, desempenhou importante papel; a fina sensibilidade estética dessas crianças era tão inconfundível que não se poderia deixar de pensar que o fracasso do seu desenvolvimento teria se baseado em processos para afastarem o impacto da beleza do mundo.
Meltzer, 1986, p. 204

 [NdaT]

O lugar em que vivemos do ponto de vista psíquico com frequência é inundado por imagens pré-acondicionadas de uma vida boa – que acumulamos por meio de imagens emprestadas. Essas podem ser infectadas pela explosão de fantasias consumistas. A moda muitas vezes nos promete um passaporte para esse mundo emocionante e as marcas de produtos são suas rápidas rotas. Essas se tornam sinais incipientes de felicidade, entusiasmo e outros tipos de “terra do nunca”. Como é possível pensar psicanaliticamente na adição a esses mundos de incitação consumista? A maioria dos psicanalistas concordaria que a adição é marcada pela confiança compulsiva e insaciável em um objeto/atividade que defende o sujeito de sentimentos de desamparo e da dor da perda, criando um mundo onipotente em que se evita o sofrimento. 

Esses produtos e estilos de vida podem ser considerados como substitutos para os objetos estéticos? Meltzer (1986) escreve sobre o tumulto dos encontros emocionais como processos por meio dos quais pesquisamos e possivelmente chegamos a experiências estéticas. Seguindo o dito de Keats (1819): “A beleza é a verdade, a verdade é a beleza”, Bion e Meltzer concordariam que é apenas com a experiência da verdade emocional que nasce a experiência estética. No entanto, objetos pseudo-estéticos ou “proto-estéticos” (precursores de experiências estéticas simbolizadas e emocionalmente digeridas) são consumidos e não encontrados. Ao usar esse termo, refiro-me à ideia de Meltzer a respeito da entrada da criança no mundo e o encontro com a mãe bela, mas aterrorizante que, talvez seja o alicerce da busca de um objeto estético. Se o vivenciado for um objeto fino, unidimensional (sem profundidade), talvez esse bebê só possa crescer em um mundo de objetos finos como papel. Em vez de introjetar um objeto total, esse bebê se apega à superfície das coisas. A fragilidade desses apegos pode deixar uma experiência de vazio que podemos observar se manifestando em relações aditivas. A obsessão por imagens de bem-aventurança pode estar ligada a um mundo objetal aditivo e pode ser uma perversão do impulso estético. No caso, uso Madame Bovary (1856) para explorar esse mundo de objetos e sua manifestação sob a forma de um apetite insaciável de acumulação de objetos proto-estéticos.

Ignês Sodré escreve “sobre o uso do devanear compulsivo como droga para curar estados mentais de vazio e depressão”. “Em sua essência, o grande romance de Flaubert não é”, ela continua, “sobre os males do adultério ou mesmo de ganância indiscriminada: Madame Bovary trata do uso indevido da imaginação” (p. 57). Sodré chama a atenção para o devanear compulsivo como morada psíquica. É um mundo de fantasia consciente mantido em segredo. Pode ser o caso frequente de nossos pacientes que mantêm em segredo esse mundo aditivo de fantasias. Mundo que é uma compilação de imagens pré-fabricadas de felicidade suprema com a promessa subjacente de onipotência.

Desde o início do romance, podemos sentir a morte do mundo de Emma com clareza ameaçadora. Isso é acompanhado pela intensidade cada vez maior de fantasias fúteis. Seu pai a coloca em um convento em que ela fica absorvida pela atmosfera:

Ela foi embalada suavemente pelo langor místico exalado dos perfumes do altar, do frescor da água benta e das luzes ... Fez um esforço mental enorme para encontrar uma promessa que pudesse cumprir ... (p. 33)

A palavra “embalada” no caso indica que determinados sentimentos estão sendo apaziguados pelo prazer sensual. É uma descrição marcante do que Meltzer (1975) chama de “superficialidade”, constituída por um mundo interno de objetos fino e unidimensional que só pode ecoar o que recebe, sem encontrar significado próprio. Ao confessar, somos informados, ela “inventou pequenos pecados” para permanecer mais tempo no ambiente sensual agradável. Ainda depois nos informam:

Em seu desejo ela confundiu as sensualidades do luxo com os prazeres do coração, a elegância das maneiras com a delicadeza dos sentimentos (p. 55).

E, novamente, 

“essa natureza, positiva no meio do seu entusiasmo, que amou a igreja pelas flores, a música pelas palavras dos cânticos e a literatura pelo seu estímulo passional, rebelou-se contra os mistérios da fé, na medida em que foi aumentando a irritação com a disciplina ... (p. 37)

O narrador é imparcial sobre a incapacidade de Emma de sofrer dor mental:

Quando sua mãe morreu, chorou muito nos três primeiros dias. Ela possuía uma foto do funeral feita com os cabelos da falecida e, em carta enviada a Bertaux repleta de tristes reflexões sobre a vida, pediu para ser enterrada depois no mesmo túmulo ... Emma estava secretamente satisfeita por ter alcançado, na primeira tentativa, o ideal raro de vidas descoloridas, jamais alcançado por corações medíocres” (p. 3)

Essa perda também se torna fonte de gratificação narcísica. O vazio e o tédio estão ligados à ausência de qualquer vínculo emocional real com os outros. O encontro inicial com Charles Bovary revela esse tédio opressivo (ou sua incapacidade de encontrar significado). A voz dela se modificava:

aparentava estar repleta de tédio, seus pensamentos vagavam ... (p. 22)

Mas ela se esforçava para sentir. Seus esforços fracassam, pois se baseiam em imitação, não na experiência:

... ela queria se apaixonar por ele. Ao luar do jardim, recitava todas as rimas apaixonadas que conhecia de cor e, suspirando, cantava para ele muitos adágios melancólicos, mas se sentia tão calma quanto antes ... (p. 41)

Logo após o casamento, Charles se sente intoxicado de amor, mas Emma não consegue sentir-se feliz:

... Emma tentou descobrir o que na vida queriam dizer exatamente as palavras felicidade, paixão, êxtase que lhe pareciam tão belas nos livros (p. 33)

A aridez da vida íntima de Emma é tão palpável que é realmente aterrorizante. Sonhar acordada é uma tentativa desesperada de sobreviver ao panorama emocional inexpressivo que ameaça não só absorvê-la como também o leitor. Isso modela o desespero em busca de excitação. Após seu comparecimento ao baile dado pelo Marquês d’Andervilliers, ela volta repleta de descontentamento e inquietação: 

Conhecia as últimas modas, os endereços dos melhores alfaiates ... ela estudou as descrições de mobília; leu Balzac e George Sand, buscando gratificar em fantasia seus desejos secretos (p. 54)

Ela imita a vida das pessoas que habitam sua imaginação:

Tudo em seu entorno imediato, a paisagem entediante, o pequeno-burguês tolo, a mediocridade geral da vida; parecia uma espécie de anomalia, um acidente singular que atingira apenas a ela, enquanto além ... desenrolava-se o imenso reino de prazer e paixão (p. 55)

Com esse estilo de vida, a identificação adesiva aumenta sua frustração e ela sofre um colapso. A violência que ela busca é, em si mesma, um substituto para a turbulência das experiências emocionais vividas. Ela desmorona, pois é incapaz de encontrar significado por meio dessa incessante troca. Esse colapso indica não só a incapacidade de Emma ir adiante como também uma denegação (forclusão) no texto – a incapacidade literal de ir adiante. 

Há momentos no texto em que essa denegação (forclusão) torna-se mais evidente. Após o casamento de Emma, quando o pai volta para a casa vazia, cheia de lembranças da esposa morta, da primeira gestação dela – há uma alusão ao filho morto:

... por um momento sentiu vontade de dar uma volta até a igreja. No entanto, como ficou temeroso de que essa visão o deixasse ainda mais triste, voltou para casa (p. 29)

Esse momento tanto é incomum nesse texto, como também sintomático. Incomum na ternura e sintomático no afastamento da emotividade. Há momentos em que o texto parece tocar em algo comovente em Emma.

Por que ela não poderia se debruçar em varandas de chalés suíços, nem cultivar sua melancolia em uma cabana escocesa, com um marido de casaca de veludo preto e sapatos finos ...? Talvez ela tivesse gostado de confidenciar todas essas coisas a alguém, mas como contar uma inquietação indefinível, variável como as nuvens, instável como os ventos? As palavras não lhe deram oportunidade nem coragem (p. 38)

Esse momento é emocionante, na medida em que o narrador se aproxima de Emma e permite a entrada de algo inefável, apontando para a busca de algo “indefinível” e o desejo de significado de Emma se incorpora em ricos significantes. Há uma ausência pungente: 

Se Charles tivesse apenas desejado, se ele tivesse adivinhado, se seu olhar apenas uma vez tivesse ido ao encontro do pensamento dela ... (p. 38)

Quero apreender viciosas adições contra o pano de fundo dessas experiências não formuladas, sugeridas pelas denegações (forclusões) ou nos limites do texto (na mente do analista, quando ocorre na clínica). Que o esvaziamento de significado que Emma enfrenta no convento pode ser lido como um vazio, uma ausência em sua busca de um objeto para reverenciar. 

Bion (1992) escreve:

Há uma grande diferença entre idealização de um genitor porque a criança está em desespero e idealização porque a criança está em busca de uma saída para sentimentos de reverência e admiração. No último caso, o problema está centrado na frustração e na incapacidade de tolerar frustração de uma parte fundamental da constituição de determinado paciente. É provável que isso aconteça se o paciente for capaz de amar e admirar em nível extraordinário; no primeiro caso o paciente pode não ter capacidade específica de afeto, mas grande voracidade de ser seu receptor. A resposta para a pergunta – de qual se trata? – não será encontrada em nenhum manual, apenas no processo de psicanálise em si (p. 292)

Preocupo-me com esse último; em que se poderá ver a adição como a perversão da busca por reverência e admiração. Os momentos denegados no texto se parecem com denegações psíquicas que impedem a busca de um objeto estético. A impossibilidade de encontrar uma saída para sentimentos de reverência e de admiração pode perverter-se em adição em experiências “proto-estéticas”. Essa pode ser a base de uma pesquisa que estamos iniciando – nossas pesquisas pessoais de experiências que nos preenchem de admiração. Na ausência de outro pensamento, esse vazio pode tornar-se um vazio engolfante intolerável. 

Referências
Bion, W.R. (1992), Cogitations. London: Karnac.
Flaubert, G. (1856), Madame Bovary. London: Penguin, 1992.
Keats, J. (1819), Ode on a Grecian Urn, the Eve of St. Agnes: And Other Poems with Biographical Sketch, Introduction and Notes. Boston: Houghton Mifflin Co, 1915.
Meltzer, D. (1975), Adhesive identification. Contemporary Psychoanalysis, 11:289-310.
Meltzer, D. (1986), Studies in Extended Metapsychology. London: Karnac.
Sodre, I. (2015), Imaginary Existences: A Psychoanalytic Exploration of Phantasy, Fiction, Dreams and Daydreams. London: Routledge.
 

[NdaT]: Denegações Psíquicas: No original: foreclosure.

Tradução: Tania Mara Zalcberg
 

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