Transtornos alimentares e estado mental do paciente: Ansiedades e feridas mentais vividas na primeir

Dr. Tomomi Suzuki
 

Um exame dos conflitos que existem na mente dos pacientes com transtornos alimentares durante suas psicoterapias psicanalíticas.

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Transtornos alimentares tendem a se desenvolver na adolescência e manifestam-se mais em mulheres do que em homens. Esse grupo de doenças apresenta patologias decorrentes do medo de ficar gordo e inclui anorexia e ingestão excessiva de alimentos seguida de vômitos autoinduzidos. Hoje em dia, muitas pessoas estão interessadas em fazer dietas, acessando artigos notórios sobre o tema, diariamente, em revistas e na Internet. Contudo, nem todas as pessoas que fazem dieta desenvolvem transtornos alimentares. Qual seria então o estado mental das pessoas que acabam desenvolvendo transtornos alimentares? 

Estados mentais associados a transtornos alimentares
Durante a adolescência, as pessoas tentam separar-se de suas mães e tornarem-se independentes. Isso suscita ansiedades depressivas que elas já sentiram antes, durante a primeira infância. Se não conseguiram sentir-se seguras em suas relações com outras pessoas que desempenham o papel materno – como continente – em seu estágio de desenvolvimento, não conseguem tolerar as ansiedades depressivas. Sua mente é inundada por sentimentos de falta de confiança, desamparo por estar só, intensa tristeza, medo de não resistir à perda, sensação de vazio, medo e ansiedade de autodestruição e sensação de desespero. A menos que possam se sentir seguras na relação com suas mães, não conseguem exprimir essas ansiedades de maneira direta. Ainda que o façam, não conseguem sentir-se confiantes de que os outros aceitem esses sentimentos: o que, por sua vez, induz ao medo de abandono. Por isso, esforçam-se arduamente para se bastarem a si próprias e, de certa maneira conseguem arrumar as coisas, ao menos transitoriamente.

Pacientes com transtornos alimentares são incapazes de conter sua dor mental por si próprios e também não conseguem confiar que as pessoas ao seu redor o façam por eles. Portanto, usam o alimento ou seu próprio corpo como “âncora”, satisfazem sua sensação de onipotência, impondo abstinência a si próprios e realizando a conquista desse objetivo. Tentam ganhar confiança ao obter um corpo magro. Mas como isso não leva à segurança ou à paz de espírito no verdadeiro sentido – do tipo que poderia ser obtido na relação com outras pessoas, principalmente suas mães – acabam querendo perder ainda mais peso.

Seus únicos pensamentos ao longo do dia versam a respeito de peso; ficam obcecados por comida e calorias e acerca de comer e de não comer. Dessa maneira, podem evitar o confronto com suas ansiedades, conflitos, falta de confiança e/ou solidão. 

O transtorno alimentar, portanto, é sinal revelador de que o acervo de defesas da pessoa se esgotou; também se pode dizer que é a primeira tentativa de afirmação da mulher.

Alimentos e formação da mente; e ansiedades depressivas
Como a alimentação está envolvida na formação da mente de uma pessoa e nas relações interpessoais?

Imediatamente após o nascimento, a mente dos seres humanos não é coesa. Embora percebam os fenômenos do mundo que se desvelam diante de seus olhos, bem como suas próprias sensações, são incapazes de conceituá-los ou de compreendê-los de modo sistemático. No entanto, sua mente ainda tenta compreender o que são esses fenômenos do mundo e suas próprias sensações. 

Exatamente no momento em que está nesse processo de pensamento é que o bebê descobre o mamilo da mãe. Ele detecta e suga o mamilo, tendo assim a vivência com um objeto (objeto parcial) sob a forma dos seios da mãe que proporciona o prazer de um estômago repleto e do calor da pele. Essa experiência liga-se a conseguir confiar em outras pessoas e em si próprio, e a obter confiança.

Esse mundo ideal de amor, contudo, é criado a partir da eliminação do mundo mau, doloroso. Esse é o mundo esquizoparanóide a que Melanie Klein se referiu. Por exemplo, se um bebê está faminto e não consegue obter os seios da mãe, ele vivencia esses seios como coisas que provocam fome, o que se constitui como terrível dor que acaba destruindo o self. O bebê, imediatamente após o nascimento até por volta dos 4 ou 5 meses, tem a mente dividida em duas partes: o self bom em que ele se sente seguro e o self mau repleto de agressividade. A criança usa o mecanismo de “cisão” para separar a parte má da parte boa. Ele absorve então os objetos bons no self bom e, projeta o self mau no objeto mau e o excreta. A parte boa do self é reforçada para se tornar boa. Por outro lado, como as propriedades destrutivas do self são acrescentadas ao objeto mau, este tem sua agressividade destrutiva aumentada, dando origem à emoção persecutória de que a pessoa é atacada por esse objeto. Essa visão do mundo torna-se finalmente uma visão de mundo em que amor e ódio são cindidos em metades opostas, tal como “virtude recompensadora e vício punitivo” e “preto e branco”. Os pacientes com transtornos alimentares vivem de acordo com essa visão de mundo.

O papel da mãe como “continente” (a função alfa) abarca esse movimento e as crianças passam por um período de vida em que tentam manter certa unidade de sua mente. Função alfa é o termo usado por Wilfred Bion ao se referir ao processo complexo de mudar um estado mental insuportável para algo suportável; também se refere à função de converter uma sensação fisiológica em algo que seja psicologicamente significativo. Durante esse período, as crianças começam a reconhecer que os “seios maus” para os quais dirigiram sua agressividade e os “seios bons” que lhes proporcionam satisfação são na verdade o mesmo conjunto de seios. Por isso, a mente do bebê é forçada a realizar a tarefa de tolerar a ambivalência, de deixar intactos amor e ódio, duas emoções que antes foram vividas sem precisar coexistir. Portanto, isso leva ao desenvolvimento de ansiedades depressivas dentro de uma posição depressiva. As pessoas que sofrem de transtornos alimentares permanecem incapacitadas de assumir essa posição depressiva. 

Desenvolvimento e expansão de transtornos alimentares
Como os pacientes acabam desenvolvendo transtornos alimentares, e como os sintomas se expandem.

Antes de desenvolver a doença, os pacientes enfrentam as ansiedades da adolescência da mesma forma que a maioria das pessoas. As pulsões instintivas como os impulsos sexuais e agressivos se ativam e o controle desses impulsos se torna um desafio. Também é um período de formação de identidade e as meninas se sentem perdidas diante de diversos conjuntos de valores. Nesse momento é que se inicia, inevitavelmente, sua separação das mães e as ansiedades depressivas originadas na infância se reativam. Incapazes de suportar essas condições, as meninas se sentem magoadas e isoladas e, na esperança de se tornarem uma presença excepcional, aferram-se a formas de emagrecer o corpo. Descobrem nisso sua raison d’êtreNT: o fato de conseguirem perder peso numa proporção a que as outras pessoas não conseguem corresponder. Na medida em que emagrecem, seu impulso sexual diminui e elas descobrem o prazer dos exercícios físicos. Isso também cria a vantagem positiva de atrair o interesse e a preocupação das mães bem como a possibilidade de depender delas mais uma vez. O padrão de recusa de alimentos torna-se evidente. 

Mesmo que a magreza progrida, é acompanhada por uma sensação de prazer, assim, os pacientes continuam a fazer dietas, exercícios e a estudar até tarde da noite. Pesam-se várias vezes ao dia, calculam a toda hora o número de calorias que absorvem e vivenciam uma agitação emocional. Têm sentimentos de triunfo e de onipotência por terem sido capazes de chegar à magreza e se manterem totalmente em seu plano. “Sou capaz de fazer o que ninguém mais pode”. Alguns pacientes acabam morrendo de desnutrição; na maioria dos casos, contudo, não conseguem suportar a fome fisiológica e a ânsia de comer que brota de dentro. Começa então uma batalha, dentro da mente, entre querer comer e saber que se comerem engordarão. Quando comem, vivem terríveis sentimentos de medo e decepção. Em algum lugar, no fundo da mente, no entanto, sentem-se aliviados de terem escapado da restrição de não se alimentar que haviam imposto a si próprios. Embora esta seja uma percepção do self saudável, o self patológico mais uma vez pressiona o self “saudável” para a magreza sussurrando palavras como: “Acontecerão coisas terríveis se você comer, você sabe. Acabará ficando gordo e ninguém nunca o levará a sério. Sua mãe o abandonará, a menos que você seja magro; só sobrará desespero”. O self patológico adverte: “Até agora você deu duro, mas se comer, todos os seus esforços serão desperdiçados”. Assim, eles terminam em um círculo vicioso: retornam à anorexia e à hiperatividade e depois voltam a comer em excesso.

Ou podem usar o método de ficar artificialmente magros ao mesmo tempo em que continuam a comer em excesso: provocam vômitos após comer e abusam de laxantes. Após vomitar, são fulminados pela sensação de vazio e tristeza. Contudo, apagam essa sensação de vazio com o sentimento de realização e excitação, por terem superado o medo de engordar e mantido sua magreza. Nesse caso, acrescenta-se às suas patologias uma tendência à perversão e, como resultado, seus sintomas se cronificam. 

Começam a abusar de laxantes, pois não conseguem suportar o fato de seu estômago ficar inflado e, detestam ter comida no estômago. Como se sentem perturbados a menos que tenham esvaziado completamente o intestino, com frequência, acabam usando cada vez mais laxantes.

Seu impulso de comer em excesso é uma sensação violenta, sentem-se forçados a comer cada vez mais. Como resultado, ficam aterrorizados pelo medo de engordar para sempre. Mesmo assim, acabam comendo; o que só acarreta desespero e sentimentos de impotência; as ansiedades depressivas eliminadas podem retornar. Por isso, não podem mais controlar suas emoções, perdem a paciência e ficam agitados. Gritam e choram: “Por favor, faça algo”! Nesse momento, caso decidam buscar ajuda de outras pessoas, podem vincular outras pessoas à cura.

O trajeto que leva à cura começa na medida em que o paciente procura diversas emoções em outras pessoas: emoções que não conseguem mais processar em termos de suas ações e comportamentos para perder peso ou, em outras palavras, a tristeza, desespero e desamparo de perder seu self ideal. Ao receberem apoio de outras pessoas, os pacientes toleram as emoções depressivas que acompanham o comer excessivo, descartam o desejo de controle onipotente e aceitam a realidade do self tal qual é. Seguir esse curso de tristeza conduz ao caminho da recuperação. 

Compreender a mente da paciente durante a infância
Uma menina com anorexia nervosa disse que tentou ser uma boa filha por querer a atenção da sua mãe deprimida. Numa sessão, relatou um sonho de muita ansiedade associando o sonho ao seu nascimento da barriga da mãe. Após relatar o sonho, falou de seus sentimentos de desamparo ao se separar da mãe, em diversas situações, durante sua vida. Muitas vezes, seu terapeuta tentou conter seus sentimentos de ansiedade e solidão e ajudou-a a verbalizar essas emoções.

Enquanto terapeutas, nós precisamos compreender que o estado mental de pacientes com transtornos alimentares que se desenvolvem na adolescência está associado às ansiedades depressivas da primeira infância e devemos dar apoio e “conter” essa sensação de solidão vivida durante a infância a que a paciente se apegou até esse momento. Durante a terapia psicanalítica, quando as experiências emocionais da paciente durante a infância surgem como transferência, o essencial, acredito, reside em como o terapeuta consegue funcionar como “continente”.

Referências
Agman, G., Gorge, A. (1999). Comment vivre avec une anorexique. Lyon: Edition Josette.  
Bion, W.R. (1962). Learning From Experience. London: Maresfield Reprints (1984).
Klein, M. (1958). 'On the development of mental functioning', in The Writings of Klein, Vol 5 (1975). London: The Hogath Press Ltd.
Klein, M. (1959). On adult world and its root in infancy, in The Writings of Klein, Vol 5 (1975). London: The Hogarth Press Ltd. 
Matuki, K. (2008). Psychoanlytic Understanding and Treatment of Eating Disorders. Tokyo: Shinyoushya.

Tradução: Tania Mara Zalcberg