A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. (Freud, 1930, p.115)
Tristeza, perplexidade, impotência. Sentimentos que nos acompanham quando testemunhamos a fenda que se abre em nosso país, resultante de uma intensa polarização que vem marcando nossas discussões no campo político, social e ideológico. Relatos sobre discussões apaixonadas, atravessadas, muitas vezes, pelo ódio àquele que se encontra no polo oposto, trazem histórias de rupturas dolorosas ou conduzem o interlocutor a optar pelo não dito, a silenciar sobre suas diferenças em nome da sobrevivência de alguns de seus investimentos afetivos ou até mesmo, em situações extremas, da preservação de sua integridade física. Uma cisão que desnuda o adoecimento de nosso país, que nos desafia, em nossa perplexidade, a pensar alguns fios da trama que nos trouxeram até aqui. Muitas são as pontas para se puxar desse novelo. Tentarei, com a ajuda do olhar psicanalítico, pensar algumas delas.
Atravessados pela subjetividade de cada um, os acontecimentos que vêm mobilizando a nossa população são revestidos de narrativas diversas, verdadeiras realidades paralelas, que carregam o caráter intangível do fato e os desejos que nele são investidos. Nas dificuldades vividas pelo país, no desamparo sofrido por uma sociedade marcada por intensa desigualdade no exercício de sua cidadania e acesso à saúde, educação, moradia e emprego, o fosso crescente entre as diferentes parcelas de nossa população é parte integrante de nossa história, desde os seus primórdios colonialistas, e a faz vulnerável e suscetível à construção de novos campos de conflito e polarizações. Numa estrutura escravocrata formadora de uma elite que cunhou sua identidade através de privilégios, políticas públicas inclusivas que visam maior distribuição de renda e serviços provocam ressentimento e resistência nos grupos detentores do poder econômico, político e social. Em meio a grave crise econômica, denúncias e condenações por corrupção, à crescente violência urbana e elevada taxa de desemprego, a procura por inimigos que possam ser responsabilizados pelas frustrações e assim ‘organizar’ um mundo que se apresenta hostil, por um lado, e a articulação de parte significativa de nosso sistema jurídico, parlamentar e midiático pela disputa do poder, por outro, trazem o ambiente para mais uma vez manifestarmos a realidade – interna e externa – cindida entre o bom e o mau, entre o bandido e o herói.
Nossa sociedade comporta-se, em sua maioria, conforme a descrição trazida por Freud (1921) em seu estudo sobre a psicologia das massas: adere ao grupo com o qual se identifica, fortalece ali seus laços libidinais e sua necessidade de pertencimento, e faz do pensamento adverso alvo de ódio e intolerância. Uma polarização extremada é forjada por aqueles que visam a aniquilação do outro quando buscam, por exemplo, deslegitimar o confronto de ideias ao tratá-las, indiscriminadamente, como expressão de uma radicalização ideológica odiosa do ‘campo oposto’, especialmente quando este é considerado porta-voz do espectro progressista. Cisão e fragmentação invadem nosso tecido social e colocam em risco um jogo político que até então vinha conseguindo conter e negociar as diferenças, esgarçando, assim, a costura do laço democrático. O exercício de uma reflexão dialética forma ilhas de resistência entre aqueles que lutam pela sustentação da própria democracia.
A atuação do ódio e da destrutividade passam a ter livre trânsito no país, estimuladas e autorizadas por uma liderança perversa que emerge, em meio a esta polarização radical, com a promessa de representar a mudança na configuração político-econômica que muitos anseiam: num jogo de identificações e comunicação direta através de suas redes sociais, contracena com seus seguidores, compartilha o afrouxamento de suas inibições e o ataque constante às nossas instituições. Assistimos, perplexos mais uma vez, ao aumento de casos de feminicídio, de mortes de inocentes em operações policiais violentas, ao desrespeito crescente à dignidade da pessoa humana, especialmente quando o outro é negro, pobre, ou indígena. Dos porões de nossa mente, surgem atuações que revelam um funcionamento que faz do ódio força propulsora e unificadora de um grupo que foi determinante na escolha, pelo voto, desta mesma liderança como governante do país, um líder autoritário, incapaz de lidar com a pluralidade e o contraditório, que manifesta seu desejo de excluir aquele que se interponha às suas demandas narcísicas. A fantasia do pai onipotente que observamos na infância, ou mesmo na horda primeva, ronda as nossas esquinas.
Numa campanha onde a massiva e criminosa divulgação de distorções e falsas informações fomenta o ódio, o medo, o fanatismo e a intolerância, em especial às ideias progressistas e a seus representantes, vimos uma sociedade cair na armadilha de suas ilusões, sucumbir ao anseio libertário de conteúdos antes represados pelo compromisso com o Estado de Direito e de Bem-Estar Social que a expressiva luta e mobilização de grupos minoritários vinham conquistando: uma sociedade que se mostra refém de seus preconceitos e de seu obscurantismo, que desnuda a arrogância de seu pensamento autoritário e deixa transparecer o desejo por perpetuar sua herança escravagista, revelando, em última instância, que o maior medo de cada um é o de olhar e reconhecer as agruras de seu próprio mundo interno.
No poder aglutinador de nossas redes e mídias sociais podemos observar o terreno fértil a intensificar este fenômeno da dinâmica das massas: no imediatismo que ameaça o exercício do pensamento, o funcionamento dos grupos é ainda mais permissivo à expressão e realização dos aspectos primitivos da mente, onde a ausência do olhar do outro, da mediação de um terceiro, somadas à exclusão do que não é idêntico, ‘confirma’ a onipotência das certezas narcísicas. A negação da castração e da triangulação edípica são mais facilmente atuadas e promovem o ataque à alteridade e às interdições; institui-se uma terra sem lei, de disseminação de mentiras perversas, de verdades ‘auto-proclamadas’ por lideranças que exploram o ciclo vicioso entre o medo e o ódio, seduzindo os desejosos por narrativas ilusórias e simplistas. Parcela significativa da população, tomada por suas insatisfações e pela descrença que se teceu em torno de nossas instituições políticas e democráticas, está ávida por encontrar um objeto onde possa satisfazer a pulsão destrutiva que inunda o país. O campo virtual transborda e potencializa as manifestações de nossas ruas. A demonização daquele que deve ser considerado o inimigo, responsável por todos os nossos males e fracassos, e a demanda de um salvador que nos resgate desse desamparo, são cada vez mais moldadas e sedimentadas. Nossas eleições se acirram e acentuam o fosso que separa o país em dois brasis.
Parte de nossas instituições responsáveis pelo cumprimento da lei têm se revelado comprometidas em várias instâncias, seja na coautoria do aprofundamento deste fosso quando manipulam investigações, seja quando se deixam contagiar pelo clamor das massas sedentas por medidas punitivas que, muitas vezes, contrariam nossa Constituição. Vivemos um grave ataque ao pacto civilizatório, e ele vem com rastro.
Da malha de nossos traumas e conteúdos não elaborados, temos falhado em escutar a dor de vários segmentos da nossa população, que não veem sua subjetividade reconhecida: desde as comunidades indígenas, que tiveram suas terras invadidas e sua cultura vilipendiada, aos negros que, arrancados de suas vidas e do acesso à sua própria história e ancestralidade, foram escravizados por mais de 300 anos, e cujos descendentes seguem sendo explorados, discriminados ou submetidos a novas formas de servidão. A esses grupos, juntam-se outras minorias (LGBTQ, mulheres, moradores de rua, etc.) para formarem um verdadeiro pelotão de objetos-alvo que sirvam de continente para a projeção do insuportável unheimlich – o estranho que habita em nosso inconsciente – daqueles que dele precisam se livrar para garantir a sua sobrevivência narcísica.
Da negação de nossa história e reconhecimento de nossos crimes, surge um presidente que, para além de professar o seu conteúdo misógino, homofóbico e racista, traz, em seu discurso, o elogio à ditadura, à tortura e ao torturador, dando voz ao próprio ressentimento e daqueles que, inconformados por terem sido alijados do poder, buscam o revisionismo de um golpe – ocorrido em 1964, quando se instituiu o regime ditatorial pelos militares até a retomada do processo gradual de abertura democrática com as eleições de 1989 – que ainda hoje sangra na memória dos familiares de mortos, torturados e desaparecidos. São muitas as feridas que encapsulamos nestes quinhentos anos de Brasil, e que ecoam na intensa desigualdade e sofrimento que encontramos em nossas ruas. Nossa luta pela democracia é antiga e ainda está em curso.
Saberemos construir e efetivar um projeto verdadeiramente democrático e sair da compulsão à repetição que vem nos aprisionando? Da tendência humana a se juntar em unidades que excluem o outro e fortificam o que é idêntico, a procurar um ‘estrangeiro’ para satisfazer sua agressividade e ao mesmo tempo tentar garantir a sua coesão interna (seja na intersubjetividade entre nações, grupos ou entre sujeitos), conseguiremos desenvolver, em nosso campo social, a capacidade da tolerância e da coexistência? Nossas instituições, regredidas e derretidas, saberão retomar as rédeas de sua função? Em palestra proferida na manhã seguinte aos ataques terroristas sofridos por Paris, em 2015, Amós Oz nos propõe sermos como uma península: ‘em parte conectado com a terra firme da família, da sociedade, da tradição, da ideologia, etc. – e em parte voltado para os elementos, sozinho, e em silêncio profundo’ (p.32), numa metáfora que nos encoraja, acredito, ao necessário mergulho em nossa subjetividade, nossa destrutividade, vulnerabilidade e incompletude, para que dele possamos emergir mais integrados, capazes de reconhecer a alteridade e, quem sabe, resistir à homogeneização sedutora de nossos grupos.
Diante do recrudescimento de todo tipo de intolerância que observamos aqui e em outros lugares do mundo, da atuação ruidosa da pulsão de morte que testemunhamos nos transbordamentos de destruição e ódio – desde o desmantelamento de políticas públicas, à censura e corte de verba à nossa produção cultural e acadêmica, como também ao fogo criminoso que queima nossas florestas e ameaça inúmeras tribos indígenas – do bombardeio incessante da palavra-ato-estilhaço que desmente ou nega a nossa realidade ou, ainda, tomados pela fratura que cinde a nossa sociedade e que nos subtrai vínculos afetivos significativos, a constatação de nossa impotência vem nos adoecendo. Nos consultórios psicanalíticos, pacientes buscam dar nomes à sua dor e a do país, numa constante e difícil elaboração.
Não obstante, é preciso dizer, a partir do reconhecimento da angústia, ou até mesmo do quadro depressivo que abate muitos de nós, temos a oportunidade de mirar o olhar para as nossas lacunas históricas e acolher o desmentido, de cuidar da memória e das feridas que fervilham no caldo de nosso inconsciente – seja como indivíduo ou como nação – de elaborar os danos que deixamos para trás e lidar com os desafios do luto e da reparação, possibilitando um novo caminhar na trilha do investimento à pulsão de vida, ao desejo de saber, de saber mais de si e do outro.
A construção de caminhos que nos resgate do lugar paralisante e estéril que é o da cisão é tarefa árdua para cada um de nós. Frente à ameaça do autoritarismo que pulsa em nosso país, é necessário que possamos transformar a atual polarização em um confronto funcional e criativo, capaz de tolerar as diferenças, de frear o ataque ao pensamento e defender o exercício pleno do Estado de Direito. Precisamos abrir mão de nossas defesas onipotentes e lidar com o mal-estar da condição humana, com as fendas e o desamparo que nos constitui; nos ‘conciliar’ com a existência incômoda de nossos sintomas e insatisfações, com as instituições que a nossa cultura produziu para regular nossas relações e nos conter e proteger, através da lei, de nossa própria potência destrutiva. Mesmo que estas instituições pareçam, por um momento, ter desistido de nós, é imprescindível que jamais desistamos delas, ou passaremos, do mal-estar na civilização, ao terror da barbárie.
Referências
Boianovsky, D. (2019). Mais uma vez: por que a guerra? Trabalho apresentado no XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise, junho de 2019, Belo Horizonte – MG.
Freud, S. (1919). O estranho. Edição standart brasileira das obras psocológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão, Vol.17, pp. 273-314. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão, Vol.18, pp. 13-85. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1921). Psicologia de grupo e a análise do ego. Edição standart brasileira das obas psicológicas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão, Vol.18, pp. 89-179. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1930). O mal-estar na civilização. Edição standart brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão, Vol.21, pp. 75-171. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1933). (Einstein & Freud). Por que a guerra? Edição standart brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão, Vol. 22, pp. 237-259), Rio de Janeiro: Imago.
Oz, A. (2016). Como curar um fanático. São Paulo: Companhia das Letras.