Beisebol: um jogo norte-americano de brincadeiras íntimas e enganação
Dr. Steven H. Cooper
O beisebol se apoia no conceito metafórico de casa. O objetivo deste esporte é “chegar em casa” tanto quanto possível.
O beisebol se apoia no conceito metafórico de casa. O objetivo deste esporte é “chegar em casa” tanto quanto possível. O time que toca a última base (“casa”) mais vezes ganha. O ataque mais significativo e explosivo é o home run – a corrida para “casa”. Os jogadores estão sempre tentando ajudar os companheiros a ir para casa ou chegar nela eles mesmos. Muito no beisebol depende do que acontece na base-casa.
Conflitos, lutas e cobiça pela casa e voltar para casa formam o enredo central. Há muitos elementos de luta e colaboração íntimas que aparecem neste esporte. A seguir, desenvolvo alguns deles.
Espero ilustrar quanto do jogo de beisebol envolve uma tensão constante entre a capacidade atlética obstinada de um jogador e a enganação e sedução do jogar. Jogar beisebol é tornar as intenções difíceis de ler e, por isso, este jogo requer uma leitura cuidadosa. Arremessadores, rebatedores e campistas desempenham um papel parecido com o do Flautista de Hamelin, que seduz seu alvo para um destino trágico. Cada jogador tenta interpretar intimamente as intenções do outro. Vários níveis de adivinhação e antecipação estão envolvidos.
Para aqueles que cresceram jogando beisebol, o jogo também está frequentemente ligado a momentos de intimidade com objetos de amor ou, ao menos, objetos com quem tiveram seus melhores momentos enquanto assistiam a uma partida ou conversavam sobre beisebol. De certa forma, beisebol é um objeto de afeto, assim como o é o entorno relacional ligado a essa forma de jogar.
Arremesso, rebatida e intimidade: a arte da enganação, ilusão e exploração da vulnerabilidade
Como todos os esportes, o jogo de beisebol está limitado pelas linhas da realidade, incluindo faltas, as bordas da base-casa, a estrutura do campo e as regras do jogo. Você deve se lembrar da brilhante afirmação de Freud em 1908: “O contrário do brincar não é a seriedade, mas a realidade.”
No beisebol, a realidade é determinada pelo árbitro, que marca os strikes e as bolas; ele determina quem está salvo e quem está fora da base-casa. Ele é o juiz e o júri a respeito do que se passa na base-casa e em todas as outras bases. Rebatedores, arremessadores e receptores apelam, discutem e condenam as determinações do árbitro. Essas rusgas são mais uma questão de descarga emocional para os jogadores, já que a visão e a determinação do árbitro é lei. É verdade, no entanto, que há uma mudança epistêmica em relação à realidade na física e à autoridade com a qual a realidade é determinada: algumas decisões no beisebol podem ser revertidas após apelação ao recurso de vídeo.
No centro do beisebol está o conflito entre arremessador, rebatedor e receptor sobre a posse (teórica) da base-casa. O arremessador e o receptor querem dominá-la, assim como o rebatedor. Quanto mais controle sobre ela tiver o arremessador, menos chances de receber um arremesso favorável terá o rebatedor. Para o arremessador dominar a base-casa, ele precisa garantir que seu arremesso esteja apenas o mínimo necessário acima dela para conseguir o chamado strike. Arremessadores e recebedores referem-se a este tipo de arremesso como “triscando a base-casa”. Se o arremessador lança a bola sobre uma parte muito grande da base-casa, o rebatedor tem mais chances de conseguir uma boa rebatida. O arremessador e o receptor precisam, pois, ter um conhecimento profundo e íntimo das qualidades e fraquezas do rebatedor. Se a bola é lançada na área de especialidade do rebatedor, uma área que conhece intimamente e que pode chamar de “o quintal de sua casa”, ele tem mais chances de rebater.
A intimidade da intimidação também é fundamental. Arremessadores “enviam uma mensagem” para rebatedores que ficam muito perto da base. Se um rebatedor quiser controlar a base demais, o arremessador tentará afastá-lo. Às vezes, acertar o rebatedor com o arremesso é necessário para enviar essa mensagem.
Assim, arremessadores e receptores, observando e lendo o rebatedor com atenção, querem usar elementos de sedução, ilusão, frustração, enganação e domínio para impedir o rebatedor de acertar a bola e, em última instância, chegar em casa. Eles estudam suas tendências de rebatida. Que tipo de arremesso seduz o rebatedor? Quais são suas propensões e predileções? Por exemplo: ele costuma tentar rebater o primeiro arremesso? Se sim, talvez o arremessador tenha mais chances de induzir o rebatedor a uma rebatida em falso e, assim, conseguir um strike.
Arremessadores utilizam-se da enganação ao mudar a localização e a velocidade dos arremessos. Eles devem nutrir uma cultura de imprevisibilidade para que os rebatedores possam apenas adivinhar. Existe uma exceção: os arremessadores de knuckleballs geralmente fazem apenas este tipo de arremesso. Entretanto, a movimentação da bola no único tipo de arremesso que fazem costuma ser um mistério – inclusive para os próprios arremessadores.
Muitos grandes arremessadores baseiam seu repertório em bolas rápidas. Elas são o tipo mais simples, como uma base sobre a qual os outros arremessos se estabelecem. Elas viajam com movimento, mas não tanto quanto arremessos sem velocidade e bolas de curva. Os arremessadores de maior sucesso devem ser capazes de direcionar suas bolas rápidas com grande precisão. Por exemplo: um arremessador lança algumas bolas rápidas em sequência para, depois, enganar o rebatedor com bolas lentas, bolas curvas e bolas que mudam de velocidade. Para a maioria dos arremessadores, a bola rápida é estrutural.
Rebatedores também estudam arremessadores. Eles querem saber suas tendências. Que tipo de arremesso ele dará no começo do jogo? Como ele lançará se estiver atrás no placar? Estas são informações íntimas porque envolvem o estudo de vulnerabilidades. Rebatedores normalmente querem se posicionar na base-casa de maneira a dominá-la. Eles querem punir o arremessador que lança a bola sobre uma parte muito grande da base-casa. Eles querem minimizar a enganação astuta do arremessador e sua capacidade de direcionar a bola.
Um rebatedor também engana os adversários ao fingir uma rebatida curta para fazer os campistas se moverem para uma direção que lhe favoreça. Esta jogada também pode tirar a calma de um arremessador. Uma forma frequente de enganação é um rebatedor errar uma rebatida de propósito para criar uma falsa sensação de segurança no arremessador, que pensará poder arremessar impunemente. Se o arremessador cair nesta armadilha, o rebatedor estará pronto para dar o bote e conseguir uma boa rebatida. A relação íntima entre rebatedores e treinadores de primeira e terceira bases repousa sobre o desenvolvimento de esquemas para ludibriar arremessadores e campistas, deixando-os preocupados com certos cenários que podem ser opostos aos que rebatedores e treinadores têm em mente.
O ritmo lento do beisebol em relação a outros esportes faz com que assistir a este jogo seja algo mais íntimo. Há tempo suficiente para ler e investigar intencionalidades que não estão presentes no futebol, futebol americano ou basquete. Nestes esportes, a leitura do jogo acontece em um nanossegundo. No beisebol, podemos olhar e refletir internamente. Embora seja tolo comparar isso ao espaço autorreflexivo intermediado da psicanálise, é, em certo sentido, um esporte contemplativo.
Defensores externos, por sua vez, trabalham juntos intimamente para estudar as tendências dos rebatedores a mandar bolas para determinadas partes do campo. Os defensores internos também colaboram entre si para garantir que estejam cobrindo o máximo de espaço possível no centro do campo. Estes jogadores entendem muito de traição. Eles podem tentar convencer um rebatedor de que estão pendendo para um lado ou outro, atraindo-o a rebater para uma parte específica do campo.
O beisebol envolve, pois, uma tensão constante entre intencionalidade sincera, puro êxito atlético e jogos de enganação e sedução. Cada jogador tenta interpretar intimamente as intenções do outro.
Alguns elementos íntimos da audiência e da meta-audiência de beisebol e esportes
Assistir a esportes funciona parcialmente como um repositório para partes tanto idealizadas quanto degradadas da experiência pessoal. Esportes, com sua ação e fantasia, catalisam uma variedade de anseios nostálgicos, incluindo o desejo de ressuscitar experiências positivas da infância e de criar fantasias falsas e idealizadas sobre quem gostaríamos de ser naquele tempo e agora. Muitos adultos conservam anseios por um tempo em que brincar era a sua profissão e em que a ilusão oferecida pelos esportes estava a apenas um pequeno salto em relação ao dia-a-dia, diferentemente do que ocorre em meio às responsabilidades e o estresse da vida adulta.
Assistir a beisebol proporciona, portanto, espaços psíquicos coletivos para regressão. Adultos que cresceram assistindo a este esporte são transportados de volta para suas próprias fantasias idealizadas e heroicas sobre eles mesmos – por exemplo: “eu poderia ter sido um jogador”. Há também fantasias regressivas associadas aos heróis de sua infância – atletas e, claro, pais de quem algumas fantasias são deslocadas.
Os adultos têm extremo orgulho dos êxitos atléticos de seus filhos por razões intrínsecas às alegrias do uso que as crianças fazem de seus corpos de modos novos e extraordinários. Os pais também revisitam por tabela os jogos de sua infância por meio da participação atlética de seus filhos. Platão entendia que as brincadeiras da infância eram melhor capturadas pelo verbo “saltar”. Enquanto muitos associam beisebol com uma atividade arrastada e com a espera pela ação – em contraste com basquete, futebol, futebol americano e hóquei – há maravilhosos saltos no beisebol e trata-se de um esporte surpreendentemente desafiador em termos atléticos. Rebatedores posicionados a pouco mais de 25 metros de distância de homens normalmente bastante grandes arremessando bolas a cerca de 150km/h correm sério risco de se machucar.
Atletas tornam-se os representantes da nossa infância. Jogadores de beisebol têm como profissão jogar, “brincar”. Nós não somente nos identificamos com isso, como também os invejamos. Claro que é cada vez mais difícil esquecer nossa descrença em relação aos elementos lúdicos do jogar com o mercantilismo do esporte invadindo nossas vidas o tempo todo. Para entender os esportes nos últimos 50 anos, uma pessoa precisa entender elementos de direito contratual, enquanto os fãs mais ávidos conhecem profundamente as nuances dos contratos dos atletas.
Os esportes também englobam elementos ruins da experiência de uma pessoa, que resultam da tentativa de reconciliação entre a alegria da fantasia e a decepção da realidade. Os atletas, por conterem essas fantasias idealizadas, são objetos que conservamos imediatamente e ambivalentemente, adorados mas também odiados porque não podem jamais corresponder às idealizações ansiadas. O beisebol oferece uma organização íntima para que os fãs gritem com os jogadores ou aplaudam-nos com adulação, além de, é claro, criar ambivalências mais restritas entre os polos admiração/apreciação e decepção/esvaziamento.
Os norte-americanos são espectadores. Diz-se que o estadunidense médio assiste à televisão 6 horas por dia. Os objetos desta audiência estão cada vez mais distantes do público, apesar dos chamados calor e urgência da televisão. Isso pode levar ao que David Foster Wallace (1990) chamou de “meta-audiência”. Não estamos mais apenas assistindo a esportes, mas comentando sobre nossa audiência e comentando sobre nossos comentários. O conceito de ver e assistir a um espetáculo se expande. Isso ocorreu com a literatura de ficção e a crítica de ficção, que Wallace chama de “meta-ficção”: escrever sobre a observação de nós mesmos enquanto escrevemos. É como se estivéssemos desenvolvendo um novo esporte relacionado a assistir intimamente aos atletas para depená-los, algo a que me referi em um trabalho anterior. O lado negativo de nossa ambivalência para com os atletas seria o “espetaculódio” (“specthating”: Cooper, 2015). Neste novo modo de se estar intimamente envolvido com esportes, temos muito mais acesso a nossa desvalorização e inveja dos atletas via programas esportivos que são transmitidos 24 horas por dia no rádio, na TV e online. Estamos nos afastando cada vez mais da verdadeira observação e identificação com os atletas. Em certo sentido, o espaço transicional do esporte está mudando. A capacidade de ilusão está se desmontando. Pergunto-me se a idealização que as crianças têm dos atletas também estará mais difícil de sustentar.
Dadas as nossas predileções por idealizações, não é surpreendente que atletas estejam geralmente sujeitos a grandes quedas – de amados a invejados ou até odiados. Somos levados, de certa forma, a não nos deixar agarrar a uma conexão humana com um atleta. Os atletas são cada vez mais associados ao mercantilismo do cotidiano e acabam por ser mais representantes de produtos do que de suas notáveis habilidades atléticas. O atleta é, às vezes, mais uma marca do que uma pessoa. Muitos atletas são “adorados” (conexão linguística com seu status heroico e divino) e o conhecimento de suas vulnerabilidades é coletivamente dissociado deles ou mesmo negado. Negamos seu alcoolismo, seu vício em sexo e drogas, além do seu uso de substâncias proibidas para melhorar o desempenho. Quando descobrimos tudo isso, “odiamos” esses atletas porque eles não são quem pensávamos que fossem e quem inconscientemente desejávamos que fossem. De certa forma, condenamos o fato de eles não serem os objetos transicionais que havíamos criado.
É interessante pensar nos tipos de audiência íntima da qual participamos enquanto fazemos ou observamos esportes e, por outro lado, a meta-audiência íntima que acontece agora em discussões sobre esportes e no comércio ligado a eles. Como podemos aprender com lições a respeito da verdade em reportagens sobre o nosso mundo virtual, é mais fácil um árbitro de beisebol mediar a realidade entre as linhas do campo de jogo do que os porosos e fibrosos vetores de persuasão na interpretação de esportes e notícias. No beisebol, quando o árbitro determina um strike, é um strike porque ele assim determinou. Podemos aceitar essa construção inocente e fictícia – essencialmente uma ditadura – melhor do que a do árbitro aparentemente mais perigoso da vida real.
Referências
Cooper, S. (2010). 'The grandiosity of self-loathing: Transference-countertransference considerations.' Int.J.Psycho-anal.
Cooper, S. H. (2015). Some Reflections on the Romance and Degradation of Sports: Watching and Meta-watching in the Changing Transitional Space of Sport.
Wallace, D. (1990) A Supposedly Fun thing I’ll Never Do Again: Essays and Arguments. Boston: Back Bay Books, Little, Brown and Company.
Winnicott, D. (1971). Playing and Reality. New York: Basic Books
Tradução: Gabriel Hirschhorn