Racismo, homossexualidade e paranoia

Dr. Gilbert Diatkine
 

O racismo delirante é resultado de uma posição masoquista de submissão a um objeto paterno assustador, ligado a um objeto materno primário que o sujeito recupera dessa maneira.

0
Comments
1514
Read

O racista, como o delirante, sente-se vítima de um complô urdido por adversários invisíveis, que o cercam de todos os lados, procuram despojá-lo de seus bens, penetrar em sua casa e dos quais é preciso se defender por todos os meios, inclusive eventualmente através de uma violência assassina. Em 'Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade', Freud afirma que o ciúme delirante é uma ‘defesa contra uma moção homossexual demasiado forte’ (Freud, 1922, p. 273). A homossexualidade é, então, rejeitada radicalmente e uma neorrealidade é criada. Seria possível considerar que esta hipótese pudesse se aplicar a uma disposição universal do espírito humano, de onde poderiam surgir, ao mesmo tempo, o racismo e a paranoia?

Mas como é possível que a homossexualidade seja tão mal tolerada pelos paranoicos, enquanto ela pode, em outras condições, ser assumida e reivindicada? Freud sempre recusou ver na homossexualidade uma perversão ou uma neurose (Freud, 1905, p. 30, n. 13, incluída em 1915). Uma resposta para esta questão poderia ser que, na homossexualidade assumida, existe sempre um terceiro que limita o perigo de ser totalmente invadido pelo outro. Ao contrário, na homossexualidade delirante, o terceiro é fusionado com o objeto primário e não pode mais limitar sua intrusão. No fantasma homossexual dos paranoicos, como nos fantasmas racistas delirantes, nada detém a invasão pelo objeto. O estranho se infiltra em toda parte, o sujeito da raça superior é humilhado, roubado, maltratado por um inimigo sobre o qual ele não tem qualquer poder. Três concepções teóricas dão conta desta fusão dos objetos primários:

Três concepções teóricas da fusão dos objetos primários

  1. Na ‘fantasia dos pais combinados’ descrita por Melanie Klein, o sujeito é submetido a um coito destruidor por um pai no interior de uma mãe que é, ela mesma, submetida a um coito permanente e perigoso com o pai. É impossível apelar a um dos pais para se proteger do outro, pois eles são inextricavelmente imbricados. Ao    fantasiar que ele se entrega passivamente ao sadismo do pai, o sujeito pode esperar encontrar, dessa forma, o objeto materno primário perdido, ao qual a imagem do pai está ligada de certo modo (Klein, 1940, p. 366).
  2. Para Lacan, o objeto primário é a fonte primária de todas as angústias, a de ser castrado pelo pai, ou a de ser tragado pelo objeto (Lacan, 1970, p. 67, p. 215). Mas no olhar do Outro, a criança vê que ela não  basta para satisfazer sua mãe e que, fora a criança, existe alguma coisa que a mãe não tem e que excita seu desejo: o falo   do pai. Para Lacan,o falo aparece apenas  como aquilo que falta ao Outro que é, portanto, castrado, o que Lacan anota como φ (Lacan, 1962-1963, p. 53 e p. 197). Para encontrar o objeto primordial sem ser tragado por ele, o sujeito pode, ele mesmo, tornar-se esse falo ausente, ‘fecalizado’, que Lacan denomina o objeto a. Ele se torna, assim, a ‘causa’ (e não ‘o objeto’) do desejo do Outro, e provoca sua ‘volúpia’ (e não seu ‘orgasmo’). 
  3. Para Winnicott, a mãe enquanto ‘espelho’ ‘apresenta o objeto’ à criança. Ela cria o espaço transicional no qual a criança pode ‘utilizar o objeto’ e ter o sentimento subjetivo de ter criado o objeto (Winnicott, 1971, p. 154). A perda de um tal objeto continente por intermédio do espelho acarreta o desaparecimento do espaço transicional. A   distância entre a mãe e o objeto que ela apresenta é, então, abolida.

Schreber
Em suas Memórias, o presidente Schreber: descreve como a ausência de sua mulher por um período de quatro dias transformou em delírio a depressão severa em razão da qual ele estava hospitalizado no serviço do professor Flechsig há três meses. Durante esse período, sua mulher tinha vindo vê-lo duas vezes por dia, durante várias horas, e tinha almoçado todos os dias com ele (Schreber, 1903, p. 51): 

É dessa época que datam as primeiras manifestações de conluio com as forças sobrenaturais, especialmente de uma reacomodação de nervos que o professor Flechsig tinha ligado em mim, de maneira que ele falava por intermédio de meus nervos, sem estar presente pessoalmente. (Schreber, 1903, p. 52)

Quando sua mulher voltou, Schreber exigiu que ela parasse com suas visitas, para que não o visse naquele estado. Pode-se imaginar que, até então, a sra. Schreber era responsável por uma função de holding junto a seu marido. Na realidade social, como no delírio de Schreber, Flechsig era o personagem principal. Mas o investimento libidinal de Flechsig por Schreber talvez só fosse possível porque sua imagem era ‘apresentada’ ao paciente por sua esposa.

Então, tudo teria se passado como se a sra. Schreber tivesse, ao partir, levado com ela, ao mesmo tempo, a imagem de Schreber e todo o aspecto de atendimento da clínica, ligados de uma maneira indestrutível. Como no caso da perda da mulher por Schreber, às vezes é possível assinalar a perda do objeto no espelho continente, que é o ponto de partida de um antissemitismo delirante.
 
Goncourt
A partir de 1884, Edmond de Goncourt torna-se um antissemita enraivecido, que adere às convocações dos judeus à morte pelo líder antissemita Edouard Drumont (Goncourt, T. III, 17 março, 1887, p. 22). Goncourt foi anteriormente um artista de vanguarda. Ele apoiou Baudelaire e Flaubert contra a censura imperial. Aberto à cultura do outro, ele faz parte dos entendidos que introduziram os artistas japoneses no ocidente. Ele compartilhava os preconceitos de sua esposa e era antissemita como eram também Balzac, Georges Sand ou Flaubert: ele fazia comentários antissemitas supostamente espirituosos e tinha excelentes amigos judeus. 

Na vida psíquica de Edmond de Goncourt, seu irmão mais novo, Jules, ocupava um lugar especial. Quase toda sua obra romanesca e teatral foi redigida em conjunto com ele. O Jornal dos Goncourt foi escrito na primeira pessoa do singular. Os dois irmãos o ditam em dueto, desde 1851, mas é Jules quem escreve. Ao contrário de Edmond, Jules mantem contato com sua família e uma vida sexual exuberante que, aliás, lhe valerá a paralisia geral (uma forma de sífilis nervosa) da qual ele morre em 1870 (Ibid., T. II, p. 243). Edmond dá detalhes precisos sobre a maneira como é feito seu trabalho de luto, interiorizando aspectos específicos de seu irmão, especialmente sua liberdade sexual. A interiorização do objeto em espelho que Jules representa para seu irmão não é suficiente para garantir o equilíbrio narcísico de Edmond. Ele precisa de um ambiente exterior que pudesse substituir seu irmão. Ele o encontra fazendo parte dos jovens escritores de futuro que Gustave Flaubert reúne em torno dele: Zola, Tourgueniev, Daudet e Goncourt. Após o falecimento de Flaubert em 1880, esse grupo, devastado pelas rivalidades, se dissolve. Goncourt encontra, então, nos amigos de Alphonse Daudet um novo objeto em espelho continente. Quando ele encontra Daudet pela primeira vez, Edmond descobre detalhes que lhe lembram seu irmão. Mas em 1884, Daudet também é afetado por uma sífilis nervosa (Ibid., T.II, p. 1806), um tabes assustadoramente doloroso. 

Goncourt, então, substitui Daudet por Edouard Drumont como objeto continente no espelho. Edouard Drumont, que vai publicar A França Judia, em 1886, representa um papel essencial na ascensão do antissemitismo assassino na França. Goncourt permanece um antissemita militante, até que ele cria seu próprio objeto continente, sob a forma da ‘Academia Goncourt’ um grupo de jovens literatos, dos quais ele é o coordenador, e que designará a cada ano o jovem escritor que será o literato do futuro que ele teria gostado de ser. A cada ano, comprando em grande quantidade o romance que recebeu o Prêmio Goncourt, os franceses contribuem para o narcisismo póstumo de Edmond de Goncourt.
 
Céline
Após ter sido um adolescente conformista, Céline é ferido assim que começa a primeira guerra mundial e parece perder de uma só vez todas as suas ilusões. Ele emerge da guerra de 1914 como um cínico totalmente desabusado, que abandona sem escrúpulo as mulheres que o amam, quando não necessita mais delas. Em 1932, ele se torna, repentinamente, um escritor de primeiro plano com seu romance Viagem ao fim da noite. Ele cria uma maneira de escrever absolutamente nova. Através de um trabalho minucioso da língua escrita, ele dá ao leitor a ilusão da língua falada e transfigura os eventos que viveu de modo expressionista e magnificado.

Céline esteve por muito tempo afastado da extrema-direita e do antissemitismo. Ele ficou transtornado pela ascensão do hitlerismo, tem amigos judeus e se interessa muito por Freud. Sua virada antissemita ocorre em 1936. Então, bruscamente, ele torna seu o programa de aniquilamento dos judeus de Hitler. Ele publica, um depois do outro, três livros antissemitas de extrema violência, Bagatelas para um massacre (1937), A escola de cadáveres (1938), Os belos panos (1941). Sob a ocupação, seu antissemitismo é tão exagerado que acaba por preocupar mesmo os piores fascistas.

O que aconteceu? Em 1936, Céline publicou Morte a crédito, que após o entusiasmo provocado por Viagem ao fim da noite é muito mal acolhido pela crítica, tanto à direita quanto à esquerda. Nesse romance, Céline traça um quadro expressionista assustador de sua infância e de sua adolescência, que contrasta surpreendentemente com a realidade cotidiana banal que suas cartas deixam ver. Céline teve uma infância mimada, em uma família convencional e relativamente confortável. Esta transformação faz parte da arte de Céline, mas imagina-se facilmente o traumatismo que a leitura de Morte a crédito pode ter gerado para sua mãe. Céline só mantém relações distantes com ela, mas pode ter vivido as críticas negativas como aquilo que sua mãe poderia ter lhe dito, após ter lido Morte a crédito. Além disso, pela primeira vez em sua vida, ele não abandonou uma amante, mas foi deixado por uma delas, Elizabeth Craig, que ele vai perseguir em vão até Los Angeles. Minha hipótese é que essas perdas narcísicas simultâneas criaram um final ruim para a solução que Céline tinha encontrado para superar o trauma da guerra. Esse mesmo trauma teria feito surgir uma crise adolescente que não havia acontecido em sua época.

A obra literária de Céline em si não era suficiente para garantir seu equilíbrio narcísico. Ela devia ser validada pelo olhar de um público que tivesse valor a seus próprios olhos. Não o grande público que ele desprezava e que acolheu muito bem Morte a crédito, mas sua família, que ele deformou e recriou no livro, os críticos literários e sua amante Elisabeth Craig. Na falta deles, ele cria para si uma realidade nova e segura, a do judeu que se infiltra por toda parte e tenta sodomizá-lo. 
 
Racismo e paranoia
Em resumo, a disposição comum ao racismo e à paranoia poderia ser encontrada na perda de um ambiente continente, que assegura silenciosamente para o sujeito a função de espelho, de holding, de handling e de apresentação do objeto. Geralmente são os ambientes nos quais nossa vida cotidiana está imersa que realizam silenciosamente esta função: o fechamento de uma empresa, a derrota de um exército e a decadência de uma classe social representam para muitos indivíduos a perda de um objeto materno continente que garantia sua identidade e sua posição em relação a seu ideal do Eu. A regressão a uma posição masoquista de submissão passiva a um objeto assustador é uma solução de recursos para recuperar o objeto materno primário ao qual ele está ligado na fantasia. Como o delírio paranoico, o racismo é uma defesa projetiva contra esse fantasma homossexual masoquista.
 
Referências 
Céline, L.F. (2009). Cartas, edição realizada por Henri Godard e Jean-Paul Louis. Paris: Biblioteca da Pleiade, Gallimard, 2009, 2034 p.
Freud, S. (1905). Trois essais sur la théorie de la sexualité. Tradução francesa. B. Reverchon-Jouve. Paris: Gallimard, 1923.
Freud, S. (1911. Remarques psychanalytiques sur l'autobiographie d'un cas de paranoïa (Dementia paranoides).Tradução francesa. Marie Bonaparte e R. Loewenstein, (Le président Schreber) in Cinq psychanalyses. Paris: PUF, 1954. 
Freud, S. (1922). Sur quelques mécanismes névrotiques dans la jalousie, la paranoïa et l'homosexualité. Tradução francesa D. Guérineau in Névrose, psychose et perversion. Paris: PUF, 1973.
Goncourt E. & J. de (1956): Journal Fasquelle et Flammarion, 1956. Reedição de Robert Laffont, coleção Bouquins, 1989.
Klein M. (1940) Le deuil et ses rapports avec les états maniaco-depressifs. Tradução francesa de M. Derrida, in Essais de psychanalyse. Paris: Payot, 1967.
Lacan, J. (1956). D'une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose. In Ecrits. Paris: Edições du Seuil, 1966.
Lacan, J. (1962-1963) Le séminaire, X, L’angoisse. Paris: Edições du Seuil, 2004, 389p. 
Schreber, D.P. (1903. Mémoires d'un névropathe. Tradução francesa P. Duquenne e N. Sels. Paris: Seuil, 1975.
Winnicott, D.W. (1971). Le rôle de miroir de la mère et de la famille dans le développement de l’enfant. Tradução francesa Cl. Monod et J.-B. Pontalis, in Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975.
 
Tradução Marilei Jorge
 

Mais artigos de: