Carter é tão belo

Dr. Stephen Hartman
 

Este ensaio localiza o trauma no nexo de registros sobrepostos de gênero, sexualidade, classe e raça, à medida que taxonomias que apoiam o desejo normativo interpretam a experiência inconsciente.

0
Comments
854
Read

Prólogo
As lutas incitadas por gênero, sexualidade, raça e classe retratam o conflito do entrelaçamento recorrente da psique com o habitus [1] da sociedade fora do santuário do inconsciente e à vista de todos. Nesses nós interseccionais, as pessoas reúnem a sensação do corpo e seus territórios de prazer usando um léxico de objetos padronizados e novos que proporciona a cada um de Nós uma variedade de gêneros e sexualidades para adentrar e incorporar. Raça é burilada com muito menos elasticidade. 
 
Gênero e sexualidade adaptam-se ao que é possível e permissível (Dimen, 1984), apoiando-se na coerência que a identidade proporciona – geralmente reforçando um registro e diminuindo o outro. À medida que a atenção psicanalítica muda da psicobiologia de gênero para a geografia interseccional (Harris, 2019), a análise mostra que as experiências particulares de sexualidade, gênero, raça e classe competem pelo tempo de transmissão em um hibridismo psicossocial. Paradoxalmente, a identidade (um conduto para a coerência) torna-se traumática quando vetores cruzados de experiência se dividem em singularidades classificadas conforme o comando do Outro. Este ensaio narra essa luta sem fundamentar a observação em uma teoria do desenvolvimento ou técnica analítica, no intuito de defender a complexidade e opor-se à taxonomia. 
 
Carter é tão belo
Carter é tão belo que às vezes é difícil encarar seu olhar sem traçar a linha que vai dos seus amplos cachos aos lábios suaves que – mesmo ao fazer carranca, algo que ele costuma fazer, pedem um carinho. Algumas pessoas o chamariam de ‘belo”, apesar de ele ser castanho e moreno, com o torso magro, escultural e coxas de Seal[2] da Marinha. As mulheres querem ficar acima dele. Os homens supõem que ele seja gay. Rapidamente, gênero e sexualidade se revezam ao orientar o objeto para se ajustar às exigências do olhar. 

Carter não consegue se defender do desejo dos outros por ele, qualquer que seja sua forma e, ao mesmo tempo, é surpreendido pelas linhas tênues do desejo, porque – enquanto seus admiradores captam seu corpo e lhe atribuem gênero – enquanto captam seu gênero e lhe atribuem sexualidade – Carter faz permutas em gênero e sexualidade sem endosso. Carter não é intencionalmente ‘metrossexual’ ou decididamente do ‘gênero queer’[3], ele é Carter. Ele se assemelha a sexo, não a sexualidade. Ironicamente e com cumplicidade, Carter demonstra intimidade transgênero e todos começam a jogar com ele. Pense em Prince. Pense em Jake Gyllenhaal fazendo pose de Grace Jones. Imagine Barack Obama em estilo Galliano.

Quem me dera! A ideologia comanda o que Carter recusa – que os limites do desejo e a saudação da normatividade recrutem a sexualidade e o gênero como cúmplices involuntários. Quando o gênero leva o invólucro longe demais e não consegue contar uma história óbvia, nomeiam-se ‘déficits’. O gênero apela para a sexualidade dar apoio ao óbvio (um homem tão bonito como Carter deve ser gay) em consequência o gênero sobressai (um homem ‘que parece gay’ como Carter obviamente só pode ser fêmea). Essa isca e chave parecem tão óbvias que ninguém percebe como a feminilidade arca com o fardo do colapso da masculinidade. 

Carter se vê em situações complexas quando as pessoas que o desejam exigem a sua definição de gênero. Então, Carter entra em queda livre. Fecha a carranca. Desaparece da vista. Lambe suas feridas: feridas raciais; feridas de classe; todos os tipos de ferida nomeadas como ‘gênero’ ou ‘sexualidade’ para apaziguar a economia do desejo. Em seu estado de despersonalização, Carter aparece para si próprio como Little[4], um menininho negro escondendo-se dos torturadores em um antro vazio de crack em sua mente. Carter protege esse setor liminar da sua psique em que o indizível permanece sem nome. Ele desafia mapeamento. Ele brilha por meio de uma máscara sexy. Carter acabou sendo levado a vestir trajes genéricos, no hospital em que leciona, pois, certa manhã de inverno ao coordenar uma reunião ostentando um jaleco Valentino bordado, o mundo veio abaixo.
  
Carter é tão pouco óbvio 
A psicanálise clássica baseou-se na biologia aparentemente óbvia para fornecer uma taxonomia conveniente de posições psíquicas com as quais interpretar as consequências da bissexualidade psíquica e burilar uma heterossexualidade soberana. Em narrativa futura, a desvalorização em meta-nível da fenomenologia de gênero permite que o gênero anatômico do sexo esculpa a sexualidade do ponto de vista social, enquanto torna essencial a sexualidade infantil (Laplanche 2011). Um inconsciente referendado pelo sexual infantil autônomo assegura que o analista se baseie no território privilegiado branco do não óbvio, mas condena gênero e raça a aguentarem a negritude-de-ser óbvia (Mbembe, 2017).

Quando o gênero é fluido e a raça é misturada, há muito a se levar em consideração – o que é inconveniente caso você se depare com alguém não tão íntimo cuja multiplicidade o desorganiza. Portanto, não é surpresa que a ex de Carter exija que ele infle como Roger Ramjet[5]. Carter tem a queixa, mas não vai enganar ninguém[6]

Talvez gênero e sexualidade não sejam tão dicotômicos quanto halal e haram? Nem contestar um après-coup na arquitetura inconsciente a um sexual que apenas é Outro para si? A interseção das mensagens do Outro lança o significado em uma cadeia recorrente de transformações: os enigmas do desejo buscando um lugar na mente do Outro – que o encontra em uma cultura – para que o desejo possa repousar no corpo e ser investido de significado. Nesse fluxo recorrente, sexualidade, gênero e raça se elaboram entre si. Mas quando o gênero se aventura longe demais no espaço transicional, quando a ordem das coisas fica instável, a Sexualidade entra em cena para nivelar o campo de jogo e reforçar o óbvio.
 
Carter é tão sortudo
Carter é tão sortudo. Seus pais refugiados deram-lhe o nome em homenagem a um presidente americano. Não o do presidente Jimmy Carter saudado como perpétuo fracassado pelo Homem de Marlboro que tomou seu manto, mas o homem de princípios que sofreu humilhação e construiu habitats para a humanidade. 

Aconteceram coisas horríveis no país para o qual os pais de Carter fugiram, que nenhuma criança deveria precisar tolerar, coisas raramente mencionadas. Carter herdou o instinto de sobrevivência. Sabia quando se calar, quando correr e quando se manter firme. Observou a comoção frequente dos pais que o fez suspeitar da sua fé evangélica. Houve incidentes. Ao receber a ordem de confessar seus pecados, o adolescente Carter tentou esmurrar o pregador. Tornou-se violento, mas criou coragem de maneira que o incidente foi rapidamente esquecido. Ganhou bolsas de estudo. Viajou. Investiu na família, amigos e amantes. Tem uma vida plena de satisfação: autoconsciente e preocupado com os outros, dinâmico e tranquilo.
 
Carter é tão ameaçador
Carter é tão ameaçador que seus olhos ficam negros. Buracos gigantes preenchem as diminutas cavidades. Sua pele fica de um azul cinzento doentio. Ele despenca no meu divã e anseio que sua vitalidade retorne. Ainda consigo traçar a beleza de sua mandíbula apesar da carranca.

Primeiro veio o término com a mulher que nomeou seu ‘déficit de gênero’, depois o incidente com o jaleco. Carter fica furioso por receber ordens de ser óbvio. ‘Crie coragem’ dizem – algo que ameaça o sexo de Carter muito menos do que sua capacidade de jogar. Carter afia sua língua no silêncio. ‘Traga’! ele ordena em voz que só ele consegue ouvir. Está pronto para estourar, pronto para dar um golpe. ‘Não faça isso”, sussurro no silêncio. ‘Pode apostar que eu vou!’ ele me conta sem falar. Concordo. Registro. Ocupo o lugar entre matar e ser morto do qual seus pais fugiram há muito tempo, mas que Carter agora habita.
 
Carter é tão dinâmico
Carter é tão dinâmico no provador. Os vendedores o adoram. Uma saia de homem da loja Commes Des Garçons, absolutamente! Carter não tem condições de pagar, mas os vendedores fazem acontecer pois vestir Carter diante de um espelho de três folhas é o mesmo que enterrar a bola no basquete com Jesus vestido com uma djellaba[7]

Carter está em um bar em Istambul. Bar subterrâneo de venda ilegal de bebidas alcoólicas em que pessoas como os pais de Carter costumavam dançar a noite toda enquanto tanques patrulhavam a rua acima. Carter veste a pechincha comprada hoje: um blazer de lantejoulas com a lapela tão curvilínea e sensual que até Liberace se envergonharia, por ser tão feminino que precisa ser muito macho para conseguir usar. Carter não consegue acreditar na sua sorte: Little, o menino moreno do gueto em um quadro vivo do Museu da Inocência de Pamuk

A cerimônia de investidura de Trump está acontecendo a milhares de quilômetros e Carter sente-se feliz de não estar testemunhando o horror. Seus amigos retiram-se para uma mesa de canto, mas Carter quer dançar. Ele está dançando pelo bar quando um homem puxa a sua manga. Carter gira, uau! Não tinha percebido quanto teria bebido. Logo a seu lado está um americano branco sentado desajeitadamente em uma mesinha bamba com a esposa pálida. ‘Você é uma daquelas bichas de São Francisco, não?’ zomba o grosseiro caipira de Iowa. ‘Hein?’ Carter se pergunta pensando ‘que diabos?’ quando o homem se levanta e grita: ‘por que vocês não conseguem apenas serem normais?’

Carter não sabe o que o domina. Seus olhos escurecem. Ele contra-ataca: ‘de Mission!’ Ele agarra o republicano pela nuca e esmaga seu rosto gordo contra o balcão. Carter perde o equilíbrio e quando volta a si, é um amálgama sangrento na calçada. 

Os amigos o encontram. A solução: mais arak! Tontos, eles vão em busca de um bar infame e decadente. Ao se aproximarem, uma limusine guincha os pneus até parar. Um bando de guarda-costas se amontoa seguido por um homem sólido que parece um narco-terrorista colombiano e uma mulher alta e magra com sapatos Louboutin vermelhos. Os guarda-costas gesticulam para Carter e seus amigos se afastarem, mas o Narco acena e a turma de Carter é levada para o clube juntamente com o cartel. Só então Carter percebe que o enorme Narco ostenta um smoking justo Dolce e Gabbana de cetim rosa. Carter exclama ‘Impressionante!’ com o polegar para cima. ‘Guapo. Preciso experimentar essas lantejoulas’, retruca o Narco, enquanto os dois homens vão direto para a pista de dança trocando as roupas. A namorada lança um olhar para Carter: ‘Ele é meu homem! Ela insiste, ‘e você não vai sequestrar meus Louboutins de jeito nenhum!’ ‘Não diga!” responde Carter e eles passam a noite rindo muito.

Mas nos três dias seguintes, Carter mal consegue se mexer. O americano venceu. Carter sofreu uma surra interna da qual nenhum traidor de gênero moreno largado ensanguentado na calçada pode recuperar-se com rapidez. Ele volta para casa. Ele se inflama. Arde lentamente no meu divã, esfregando cinzas em suas feridas. Estou presente para garantir que as brasas queimem.
 
Carter é tão vivo
Vou lhes contar uma coisa que realmente não sei: algo que Carter mal me contou, nunca foi explicitado, nem proferido, apenas vagamente sugerido. Não tenho certeza se devo dar esse salto, ainda que me pareça óbvio. Eu tenho conhecimento (K) com o silêncio da primeira letra pressionando um pretenso O. Hesito em especular ou pior, em interpretar, em manifestar o privilégio branco de vestir o manto de uma história que tornaria Carter óbvio, sujeito a uma demanda feita pela minha interpretação. Eu não podia dizer nada e ser apenas testemunha ou solicitar minha reverie para uma formulação onírica que organiza trechos que se cruzam em totalidades simbólicas, mas jamais usei a estratégia de me esquivar da Verdade, em que o trauma domina. Portanto, contarei tal como é. 

A família de Carter, toda a família do pai de Carter, menos o trêmulo pai dele, foi alinhada e baleada um a um por um narco-terrorista. 

Nomeio esse trauma, porque é o que nós, que escutamos com atenção igualmente suspensa, tentamos não fazer – mas, por falta de outra opção, fazemos mesmo assim para discutir o óbvio. Estou tentando não adiantar o que veio primeiro ou o que vem a seguir. Afinal, não sou cartógrafo; não desejo interpolar uma curva para o gênero, sexualidade ou raça de Carter com a história de um trauma que arruinou o desenvolvimento. Quero permanecer não óbvio a respeito do que minha brancura me permite saber. 

É um paradoxo, pois para mim o óbvio é que a interpelação explicite tudo o que é complexo demais na alteridade do Outro para o Self da pesso a conseguir tolerar. E isso eu sei: Carter é um homem que não criará coragem em desespero, um homem que não se definirá mesmo que haja um massacre e um homem trêmulo pressionado contra uma parede branca e uma poça de sangue vermelho. Talvez haja palavras, talvez não. Talvez haja um nascimento presidencial. Talvez haja um narco-terrorista em alguma pista de dança estrangeira que no final da noite arranque um corpete de lantejoulas, jogue no chão e zombe do seu gêmeo desviante: ‘Estou cansado de você, bicha. Vá embora’. 
 
Referências 
Dimen, M. (1984). Politically correct? Politically incorrect? Em Pleasure and Danger: Exploring Female Sexuality. Ed. C. Vance. London: Pandora Press, pp. 138-148.
Harris, A. (2019). (IPA panel introduction)
Laplanche, J. (2011). Gender, sex, and the sexual. Em Freud and the Sexual: Essays 2000–2006. Ed. J. Fletcher. New York, NY: International Psychoanalytic Books, pp. 159– 180. 
Mbembe, A. (2017). Critique of Black Reason. Trans. L. Dubois. Durham, North Carolina: Duke University Press.

[1] Habitus – conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. (NdaT)
[2] Navy Seal – Os SEALs são uma das principais forças de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos. (NdaT)
[3] Gender queer – termo para designar pessoas que não seguem o padrão de binarismo de gênero. (NdaT)
[4] Little é o menino protagonista do filme de 2016, Moonlight, desempenhado por Alex Hibbert,.
[5] Roger Ramjet (desenho animado) é um super-herói aviador, musculoso, destemido e atrapalhado. (NdaT)
[6] No original o autor colocou uma expressão em gíria: Carter has the beef but he won’t chorizo for everyone. (NdaT)
[7] Djellaba ou galabia– manto árabe folgado com capuz. (NdaT)

Tradução: Tania Mara Zalcberg
 
 

Mais artigos de: