Corpos e maternidade: através do corpo em direção à psique
Rhona Kaplan
As teorias psicanalíticas contemporâneas que investigam a ambivalência em torno da ‘maternidade’ dão ênfase aos conflitos psíquicos inconscientes que contribuem para o retardamento de uma gravidez.
As teorias psicanalíticas contemporâneas que investigam a ambivalência presente em torno da ‘maternidade’ dão ênfase aos conflitos psíquicos inconscientes que contribuem para o retardamento de uma gravidez. Nancy Chodorow (2003) posiciona esse conflito em meio a uma ‘constelação de fantasias e defesas’. Ela levanta a hipótese de que especificamente ‘fantasias inconscientes relativas à relação entre a mãe, a filha e os irmãos, ancoradas por uma agressão amortecida contra o eu e o objeto, desestabilizam e prejudicam a fertilidade’ (Chodorow, 2003, p.1181). Proponho que o ponto de acesso às fantasias e aos conflitos inconscientes está na experiência corporal de fertilidade (na qual incluo tratamentos de fertilidade, aborto e gravidez).
O desvelamento dos conflitos psíquicos em torno da gravidez pode ser um resultado valioso e produtivo de um tratamento. No entanto, a investigação e interpretação desses conflitos com os pacientes pode vir a apresentar um dilema clínico. Chodorow (2003) descreve o desafio de trabalhar com pacientes que chegaram a uma situação onde já é ‘tarde demais’ para algo, com o sentido de ‘irreversível’ e ‘absoluto’. Ainda, a ambivalência dos pacientes pode refletir não apenas conflitos psíquicos internos, mas circunstâncias externas que limitam a opção de ter filhos. Sentimentos dolorosos de arrependimento e vergonha podem impedir uma potencial compreensão mais profunda. Estou propondo que, uma vez tomada a decisão de ter filhos, certos conflitos emergem através daquilo que o indivíduo experimenta em seu corpo. Abordo a compreensão dessas experiências conflitantes através do vértice da dissociação (Bromberg, 1998). Os pacientes, sem o saber, deixam de fora de sua consciência crenças e sentimentos em relação ao desejo (ou à falta dele) de ter filhos. Para alguns pacientes, estes aspectos dissociados da experiência individual entram em foco quando são sentidos no corpo. O significado associado à gravidez e à parentalidade se manifesta então no âmbito do corpóreo. Para ilustrar minha afirmação, apresentarei três breves vinhetas de casos: Rori, Sam e Cora. As conexões com conflitos e experiências dissociados se cristalizaram através da experiência visceral de gravidez, de tratamentos de fertilidade e de aborto espontâneo, respectivamente. Ao longo dos tratamentos, desenvolvemos ligações com narrativas inconscientes e dissociadas, com identificações parentais e expectativas de gênero internalizadas. Embora todos esses temas estivessem presentes em cada paciente descrito, eu os destaco por uma questão de clareza.
Rori
Rori é uma mulher cisgênero de 40 anos com quem tenho trabalhado há quatro anos. Quando iniciou a terapia, ela era mãe de uma criança de dois anos. Rori descrevia muitos momentos de alegria com sua pequena criança, ao mesmo tempo em que sentia também intensa dúvida e ansiedade a respeito de sua habilidade em exercer a parentalidade. Atribuía a essa ansiedade os sentimentos conflitivos que expressava a respeito da ideia de ter um segundo filho. Durante o primeiro trimestre de sua gravidez, Rori sofreu de fadiga e náuseas extremas. O desconforto com a gravidez parecia estimular nela sentimentos de desespero, tanto quanto de arrependimento. Estava aterrorizada por ter tomado uma decisão irreversível, o que perpetuava nela um ciclo de pânico e desamparo. Nos estágios iniciais de sua gravidez, a consciência de Rori permaneceu ligada concretamente ao seu corpo. Com o avanço da gravidez, houve um certo alívio do cansaço e da náusea, mas Rori continuava a se debater com um sentimento de mal-estar acompanhado de culpa. Ela sentia profunda vergonha por não se sentir ‘mais animada’, mas sentir precisamente o contrário disso. Esforcei-me para ajudar Rori a investigar as possíveis origens inconscientes que poderiam estar contribuindo para o surgimento desses sentimentos de desespero e culpa. Durante algum tempo, afastei-me de uma posição analítica e me senti compelida a ser diretiva e acolhedora. No entanto, isso não aliviou o sofrimento de Rori. Ao longo de várias sessões, notei uma sensação de vazio e de deficiência a respeito do meu próprio corpo. Também observei em mim um sentimento de profunda vergonha e culpa a respeito do que pareciam ser intervenções fúteis para aliviar a turbulência interna de Rori. Os questionamentos de Rori a respeito das minhas próprias experiências pessoais de gravidez ativaram em mim sentimentos de deficiência e vergonha que se assemelhavam aos dela. Eu nunca havia tido filhos biológicos e parecia a Rori que eu não seria capaz de me conectar com as suas experiências. Rori absorvera as expectativas [sociais] relativas à maternidade, assim como eu também havia feito, e, como uma mulher cis, internalizara um fracasso pessoal, fracasso que eu havia eliminado do meu consciente. Tornamo-nos, agora, capazes de dar voz à sua narrativa, que até então não havia podido ser formulada. Essa narrativa incluía expectativas internalizadas em relação à maternidade relacionadas ao gênero. Rori foi capaz de colocar em palavras as mensagens sociais relacionadas ao gênero que absorvera e que contribuíram para seu desenvolvimento como ‘mulher’. Pode descrever seus sentimentos de inadequação em função da sua falta de alegria e prazer durante a gravidez. Seus sentimentos contradiziam as mensagens sociais que vinculam o valor de uma mulher não apenas à sua capacidade de gerar filhos, mas também ao seu desejo de ter filhos. Nesse desejo, conforme Rori descreveu, ela não sentia haver espaço para outros sentimentos menos agradáveis ou reações negativas em relação ao próprio corpo grávido.
Ao acessar a perda dentro de mim, também descobrimos uma história materna de múltiplos abortos espontâneos. Rori sabia que seus pais tiveram muita dificuldade em concebê-la. No início de sua terapia, Rori havia mencionado isso em nossas conversas a respeito do fato de ela ser filha única. Naquele momento, ela não havia revelado mais detalhes, estabelecendo-se, assim, uma lacuna com relação a esse aspecto de sua história familiar. Rori não tinha se dado conta disso, e a história em torno dos abortos espontâneos de sua mãe só ficou clara quando pudemos pensar juntas a respeito de suas dificuldades. Rori acabou fazendo uma associação do seu conflito, com relação à concepção de um segundo filho e da sua culpa e desespero, com a história de sua mãe. Rori também ficou mais atenta à maneira com que sua mãe interagia com ela durante a gravidez. Rori afirmava frequentemente que sentia que sua mãe a criticava quanto à forma como ela se cuidava. Sentia isso como uma intrusão por parte da mãe e expressou o seu sentimento de não ser humana, mas um ‘receptáculo" e um objeto para os outros. Ao investigar melhor esse ponto, pudemos chegar à experiência de Rori com relação à inveja de sua mãe. Ao mesmo tempo, a culpa de Rori se tornou mais acentuada em relação à perda que seus pais sofreram por não terem podido ter um segundo filho, que era desejado mas que não era possível, uma perda cujo luto não havia sido feito. Na medida em que pudemos acessar as complexas associações e narrativas inconscientes, Rori sentiu uma sensação crescente de esperança. Sua ansiedade, embora não tivesse sido eliminada, foi aliviada significativamente com a compreensão daquilo que ela carregava em seu corpo e em sua psique.
Sam
Sam é um homem de 35 anos, que se autoidentifica como transgênero. Ele e seu parceiro há três anos, um homem cisgênero, queriam ‘construir uma família". Conversaram, para tanto, a respeito das várias possibilidades que tinham, tais como lançar mão da tecnologia reprodutiva, adotar uma criança ou ainda se utilizar de uma ‘barriga de aluguel’. Nas sessões de terapia, Sam e eu examinamos o significado que teria para ele ter um filho biológico. Sam demonstrou, por um lado, um apego à sua genética e, por outro, ter também uma vontade de escapar a essa mesma ‘genética’. A mãe de Sam havia sido diagnosticada com transtorno bipolar quando ela era criança. Ele se lembrou de períodos em que ela apresentava episódios depressivos debilitantes, que eram seguidos por sintomas maníacos. O pai de Sam, sobrecarregado com os cuidados com sua esposa, via-se limitado na sua capacidade de ser um cuidador emocionalmente disponível para Sam. Sam se lembrou de como ansiava pela atenção do pai. Sam muitas vezes descrevia um desejo profundo e não realizado de conexão com seu pai. Enquanto investigávamos os temas relacionados às suas necessidades não atendidas, Sam também fazia a sua transição, que se dava então com o início de um tratamento de injeções de testosterona. Na medida em que ficava mais satisfeito e confortável com o seu corpo, Sam se dava conta de que também estava se sentindo em conflito com relação ao fato de que a testosterona pudesse vir a interferir irreversivelmente em sua fertilidade como uma mulher.
A ligação que ele sentia com a sua genética era o tema central desse conflito. Após cuidadosas considerações, Sam e seu parceiro tomaram a decisão de realizar uma fertilização in vitro. Sam começou a reduzir sua testosterona e, finalmente, iniciou o ciclo de injeções de hormônios na esperança de produzir ovócitos para a formação de embriões. Os tratamentos hormonais causaram alterações fisiológicas, às quais Sam respondeu de maneira forte e inesperada. Com essas mudanças, Sam experimentou uma perda do seu ‘eu masculino’. Simultaneamente, ele descreveu a reconexão com uma parte de si mesmo, que sentiu que havia ‘deixado para trás’. As mudanças fisiológicas ativaram uma gama de emoções nele e foram de grande significado para Sam. Ele também foi capaz de identificar divisões binárias em suas ideias a respeito de ‘feminilidade" e ‘masculinidade’. Relatou sentir-se ‘choroso’ durante o ciclo de fertilização in vitro, atribuindo isso aos efeitos dos hormônios. Uma investigação mais profunda dessa tristeza revelou tanto sentimentos de perda quanto uma identificação com a sua mãe, que ele havia visto com frequência chorando durante seus episódios depressivos. A perda temporária, daquilo que Sam descreveu como seu ‘eu masculino’, intensificou o sentimento de perda da conexão com seu pai. Ele se imaginou como um pai e expressou o medo de abandonar [um filho]. Ao mesmo tempo, ele experimentou um senso de otimismo e esperança em poder criar uma família coesa e funcional. Ele também reconheceu tanto a possibilidade real quanto a sua fantasia de poder curar feridas passadas, que resultaram dos vínculos destruídos com os pais. O corpo em transição de Sam tornou-se uma fonte de sentimentos de perda e de conexão com ambos os pais.
Cora
Cora, uma mulher cisgênero, de trinta e poucos anos e solteira, ansiava por um filho há algum tempo. Ela havia procurado uma terapia inicialmente em função de uma experiência crônica e subjacente de ansiedade com pânico, da qual não conseguia encontrar alívio. Ao longo de seu primeiro ano de tratamento, Cora pode identificar a fonte de seu pânico no fato de o tempo passar, um tempo em que ela sentia que tinha que engravidar e ter um filho biológico. Cora afirmou que sempre sentiu o desejo de ser mãe, mas não imaginava que poderia se tornar mãe sem um parceiro. A partir desse insight e sentindo-se pressionada, Cora pediu a um amigo com quem mantinha uma amizade platônica para ajudá-la a conceber uma criança (através da fertilização in vitro) e assim ser o co-pai. Após o sucesso da primeira rodada de fertilização in vitro, Cora se sentiu inicialmente otimista e o seu pânico diminuiu temporariamente. Durante o segundo mês de gravidez, ela relatou uma interrupção dos sintomas que ela havia experimentado anteriormente. Cora, então, chegou a uma de suas sessões ansiosa e angustiada, tinha certeza de que estava tendo um aborto. Isso foi confirmado em um ultrassom, o que fez com que Cora experimentasse uma profunda devastação e desespero. Cora optou, então, por um procedimento que a impediria de abortar naturalmente ao longo de um certo período de tempo. Embora tivesse optado pelo procedimento para não ter que passar novamente pelas dores de um ‘aborto natural’, veio a sentir também muita vergonha.
Havia uma série de julgamentos reais e percebidos por ela vindos dos outros. Um médico informou Cora de que havia um fraco batimento cardíaco fetal, a fim de dissuadi-la a fazer o procedimento, embora a gravidez já não fosse mais viável. A experiência foi traumática para Cora e teve múltiplos significados. Sua identidade como mulher, e como uma pessoa que queria ser mãe, se via ameaçada. O aborto e a experiência da D&C [curetagem] trouxeram à tona inseguranças e sentimentos de inadequação profundamente arraigados. Cora, de forma semelhante a Rori, havia internalizado expectativas relativas ao seu gênero que a valorizavam implicitamente como mulher por ‘seu útero’, conforme ela se expressava. Quando ela estava ‘na mesa’ [de operação], ela sentiu vividamente que algo estava sendo ‘tirado’ dela, algo que sentiu que seria irrecuperável. Cora expressou com pungência e tristeza que, embora se considerasse uma ‘feminista’, não podia ignorar uma parte dela, que ela sentia ser deficiente. Ela contou a respeito de interações que teve com amigas que tiveram filhos biológicos, e nas quais se sentiu inferiorizada. Observou que havia uma corrente subjacente que a excluía, quando tentou participar das conversas sobre a criação de filhos. Os breves meses de gravidez que viveu lhe deram a sensação de algo ainda não percebido até aquele momento, e que ela experimentava como uma ‘ausência" dentro dela. O aborto espontâneo e a D&C [curetagem], nas suas palavras, ‘me deixaram um sentimento ainda maior de ser mais deficiente’. Essas experiências, juntamente com as expectativas familiares, contribuíram para que ela se sentisse desvalorizada. Essa desvalorização que sentia contrastava com a vida próspera que ela tinha, que incluía relacionamentos próximos e íntimos, interesses e talentos variados, além de conquistas acadêmicas e de carreira.
Ao longo dos meses, a experiência física aguda do trauma foi diminuindo e Cora pôde levar em consideração outras opções como uma adoção ou encontrar outras maneiras para satisfazer seus desejos maternais. Enquanto isso, Cora e eu estamos trabalhando juntas para ajudá-la a experimentar o luto pela sua perda, enquanto constrói um fundamento para sentir seu valor e mérito que não esteja ligado a ‘seu útero’ ou à maternidade.
Em cada uma das vinhetas acima, ilustro a complexidade dos sentimentos que surgem com a gravidez e a maternidade. Isso incluiu as experiências da paciente relacionadas à gravidez, tratamentos reprodutivos assistidos e aborto, respectivamente. Meu trabalho com Rori, Sam e Cora revelou crenças e narrativas até então desconhecidas delas, que não eram acessadas anteriormente através da interpretação e investigação de conflitos psíquicos. Elas se deram a conhecer no domínio visceral. Através do registro da experiência corporal no trabalho psicanalítico, fomos capazes de expandir a consciência de crenças, histórias familiares e identificações anteriormente desconhecidas.
Referências
Bromberg, P. (1998). Standing in the Spaces: Essays on Clinical Process Trauma and Dissociation. New York: Psychology Press.
(Bromberg, P. (1998). Localizado nos Espaços: Ensaios sobre processo clínicos de trauma e dissociação. New York: Psychology Press.)
Chodorow, N. (2003). Too Late: Ambivalence about Motherhood, Choice and Time. Journal of the American Psychoanalytic Association, 51: 1191-1198.
(Chodorow, N. (2003). Tarde demais: Ambivalência a respeito de maternidade, escolhas e tempo. Journal of the American Psychoanalytic Association, 51: 1191-1198.)
Stern, D. (1987). Unformulated Experience and Transference. Contemporary Psychoanalysis, 23: 484-490.
(Stern, D. (1987). Experiência não formulada e transferência. Contemporary Psychoanalysis, 23: 484-490.)
Tradução Elsa Susemihl