A descrição da COVID 19 como um trauma compartilhado ou coletivo da população global não transmite com exatidão os afetos díspares da pandemia influenciados por raça e classe nos Estados Unidos. Localizo este ensaio no momento atual em que o trauma de perdas violentas em toda uma comunidade, provocado pelo assassinato de George Floyd, fez incendiar um movimento. Os tentáculos de longo alcance do racismo institucional sistêmico e da violência contra os negros (Ross, 2020) foram elucidados e ampliados pela COVID. Boulanger et al (2013) ilustraram pós furacão Katrina ‘como os aspectos pessoal e profissional permeiam-se reciprocamente de modo inevitável quando o clínico e o paciente sobrevivem a perigos e perdas semelhantes’. Como psicanalista branca, compartilhando a experiência da pandemia com meus pacientes brancos, registro o que identifico de maneira mais adequada como estresse compartilhado ou ansiedade evocada por preocupações econômicas, com saúde e incerteza. A experiência para muitos pacientes de cor - notadamente para meus pacientes negros, está longe de ter semelhança ou simetria com essa ansiedade. Os negros americanos estão morrendo em percentuais extremamente desproporcionais (Thebault et al., 2020). O número alarmante de negros encarcerados intensifica o impacto da COVID na comunidade negra. Em meio a tudo isso, vários assassinatos de pessoas negras com poucas semanas de diferença entre um e outro parecem quase impossíveis de suportar e metabolizar. Em comovente ensaio recente Nyle Fort (2020) escreve a respeito do sofrimento da comunidade negra por não poder fazer o luto de modo coletivo, um sofrimento em si:
Como mantermos essa tradição viva diante de calçadas desertas e necrotérios superlotados? Maldição, como nos mantermos vivos enquanto testemunhamos mais uma vez a morte de negros espalhar-se com rapidez.
Desconstruir ‘trauma coletivo’ é a primeira tarefa para centrar nosso trabalho no trauma do racismo e de atos racistas de violência. O termo coletivo ‘denota um número de pessoas ou coisas consideradas como grupo ou todo’. As palavras trauma e ansiedade são amplamente usadas em nosso vernáculo cotidiano. Muitas vezes são intercambiadas de modo impreciso para descrever afetos e emoções estimulados por estresse. Como mencionado antes, é essencial delinear a ansiedade provocada pela pandemia e o impacto traumático na comunidade negra:
... o afeto traumático não é ansiedade com o volume ao contrário. É o choque de uma inundação afetiva suficientemente intensa para perturbar por ser inerentemente caótica. (Bromberg, 2011, p. 49)
Nas palavras de um paciente:
Sinto-me aterrorizado, enraivecido ou ferido ou às vezes anestesiado por ser excessivo. Há muitos dias não saio de casa. Tenho medo de ser assassinado pela polícia neste momento, bem como de morrer de Corona. Nem ao menos posso ir ao funeral de meu [membro da família]. Tenho de viver com esse medo diário, todos os dias não me sinto totalmente humano. Geralmente [nós] apenas precisamos lidar com isso, fingir que estamos bem para funcionar e prosseguir com a vida a cada dia. Mas, na verdade, não estou bem.
A desumanização e a degradação sãos efeitos insidiosos do racismo e dos atos de violência política/governamental, inclusive de execuções por parte da polícia em colisão com um vírus que matou negros em proporções arrasadoras. Essas feridas inundam e oprimem de forma crônica a autoestima e a vitalidade dos meus pacientes negros. A impossibilidade de fazer o luto de forma coletiva aliena e perturba ainda mais a memória e a capacidade de criar significado (Gerson, 2009). Se não for possível falar, lamentar, ritualizar e fazer o luto diante da opressão política, como podemos começar a ajudar nossos pacientes a recuperarem seu senso de vitalidade e a colocar em palavras o que foi perdido? Em artigo anterior, ‘Can the Center Hold’, apresentei um conflito racial que irrompeu em um grupo misto de diversas raças com o qual trabalhei. Discuti como os ‘gritos’ dos membros negros do grupo poderiam ser ouvidos diante de crenças racistas. Gerson (2009) interroga ‘o que pode existir entre o grito e o silêncio’?
Isso é o que existe: como psicanalista branca que trabalha com pacientes negros, devemos nos educar e aos outros de maneira consistente, aprender, prestar testemunho e reconhecer as feridas provenientes da opressão. É imperativo permanecer profundamente sensível ao fato de que a imensa perda e pesar da COVID e dos assassinatos de negros não é proporcional à experiência de um psicanalista branco. Para essa finalidade, prestamos testemunho (Gerson, 2009), damos apoio e reconhecemos com cuidado e consideração (Benjamin, 2009) a profunda mágoa e a tristeza de nossos pacientes, amigos e colegas negros. Em nosso trabalho com pacientes brancos, devemos estar cientes da nossa cumplicidade ao deixarmos de abordar sua dissociação diante dos seus privilégios de brancos e preconceitos implícitos. Quando eles descrevem como ‘traumática’ a incerteza em torno da COVID, devemos ajudá-los a analisar o que é trauma em contraposição a estresse e a ansiedade.
Franz Fanon (1963), Dorothy Holmes (2006), Kimberlyn Leary (2007) e Lynn Layton (2006) abordam o impacto traumático da alteridade, do colonialismo e do racismo sistêmico na saúde mental, identidade e processos inconscientes internalizados. Esses analistas e escritores solicitam que abordemos em nosso trabalho todos os pacientes pela lente da interseccionalidade[NdaT]. Se não o fizermos, desconsideraremos aspectos do trauma e das feridas raciais (Leary, 2007) entremeados ao dano coletivo acumulado das pessoas marginalizadas e oprimidas.
Este ensaio ressaltou a dor e o trauma indescritíveis vividos por meus pacientes negros e suas comunidades. Devido à concisão e por uma questão de clareza, reconheço que muitas questões deixaram de ser abordadas. A discriminação e os atos de violência contra a comunidade asiática também deixaram uma cicatriz traumática em muitos pacientes meus. Isso não exclui o racismo generalizado sofrido por todas as pessoas de cor que também precisa ser considerado no momento atual e continuar no futuro.
Como descrevi o imenso ônus aos pacientes negros, acredito que estamos diante de um acerto de contas. O tema central deste ensaio foi discriminar a ansiedade compartilhada diante da COVID do sofrimento e feridas que a época atual impõe aos pacientes, amigos, colegas e vizinhos negros. Trata-se também de fazer despertar o nosso campo, a psicanálise, para dar importância ao chamamento da justiça social. Ofereço este ensaio em solidariedade a todos que lamentam e sofrem e à luta pelas vidas humanas das pessoas negras.
Referências
Benjamin, J. (2009). A relational psychoanalysis perspective on the necessity of acknowledging failure in order to restore the facilitating and containing features of the intersubjective relationship. International Journal of Psychoanalysis, 90 (3): 441-450.
Boulanger, G. (2013). Fearful symmetry: Shared trauma in New Orleans after Hurricane Katrina. Psychoanalytic Dialogues 23(1): 31-44.
Bromberg, P. (2011). Trauma and defensive dissociation and dissociation and dentalization. The Shadow of the Tsunami and The Growth of the Relational Mind, Chap. 2, p. 49: Taylor and Francis.
Gerson, S. (2009). When the third Is dead: Mourning and witnessing in the aftermath of the Holocaust. International Journal of Psychoanalysis, 90 (6): 1341-1357.
Fanon, F. (1963). The Wretched of the Earth: New York: Grove Press.
Fort, Nyles (2020). https://www.bostonglobe.com/2020/06/04/opinion/refusing-give-death-last-word/?utm_source=pocket-newtab.
Holmes, D. E. (2016). Culturally imposed trauma: The sleeping dog has awakened. Will psychoanalysis take heed? Psychoanalytic Dialogues 26(6): pp. 641-654.
Holmes, D. E. (2006). The wrecking effects of race and social class on self and success. The Psychoanalytic Quarterly 75(1): 215-235.
Kaplan, R. (2017). 'Can the Center Hold', presented at Division 39 2018 New Orleans - pending publication.
Layton, L. (2006). Racial identities, racial enactments, and normative unconscious processes. Psychoanalytic Quarterly 75(1): 237-269.
Leary, K. (2007). Racial injury and repair. Psychoanalytic Dialogues, 17(4): 539-549.
Ross, K. M. (2020). Call It What it Is – Anti-Black. https://www.nytimes.com/2020/06/04/opinion/george-floyd-anti-blackness.html.
Thebault, R., Ba Tran, A., and Williams, V. (2020) https://www.washingtonpost.com/nation/2020/04/07/coronavirus-is-infecting-killing-black-americans-an-alarmingly-high-rate-post-analysis-shows/?arc404=true.
[NdaT] A autora se refere à teoria da interseccionalidade. Estudo das identidades sociais sobrepostas e os sistemas relativos de opressão, dominação e discriminação.