O fantasma - da narrativa à experiência poética

Sra. Carmen Villoro Ruíz
 

Em Escritores criativos e devaneio, a respeito da fantasia, Freud faz uma distinção conceitual importante

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“¿A dónde habrán ido mis juguetes
los de la cuerda rota por la lluvia?
¿Vivirán
en el fondo del mar como naufragios
en el fondo del cielo
cual luceros de vidrio
en el fondo del río como cangrejos verdes
en el fondo del fuego
cual ceniza de espanto?
¿O en el fondo de mí
como fantasmas?”[1]
Víctor Rodríguez Núñez

 
Em Escritores criativos e devaneio, a respeito da fantasia, Freud faz uma distinção conceitual importante: “A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real ”. Com essa afirmação, outorga-se um estatuto de seriedade e profundidade ao brincar, que se estenderá pela vida adulta na forma de atividade criativa. Assim como a criança leva muito a sério seu jogo, o adulto encontrará na fantasia um recurso para resguardar a saúde mental. Diz Freud: “Toda criança que brinca se comporta como um poeta, pois cria um mundo próprio, ou melhor dizendo, insere as coisas de seu mundo numa nova ordem que lhe agrada” (Freud, 1907). A fantasia da qual fala Freud neste ensaio é aquela que o psiquismo se permite como sonho consciente e que segue os caminhos da imaginação, dando lugar ao brincar e depois às criações literárias. O vocábulo alemão “phantasieren“, no ensaio que nos ocupa, designa, em um sentido mais amplo, tudo aquilo que se relaciona com a atividade imaginativa. De fato, Freud utiliza com frequência neste artigo a palavra “Tagtraum” que, literalmente, significa sonho diurno. Por outro lado, em A interpretação dos sonhos, livro anterior a este artigo, o criador da psicanálise fala de outras fantasias, daquelas de ordem inconsciente, que se revelam, disfarçadas, nas imagens oníricas (Freud, 1900); a fantasia passa a ser, junto com as lembranças infantis esquecidas, um retorno do reprimido, um signo de outra coisa que não vemos, a presença de uma ausência (“no fundo do mar, como náufragos”, diria o poeta Víctor Rodríguez Núñez), uma metáfora plástica ou literária.
 
Melanie Klein, por sua vez, outorga às fantasias inconscientes um lugar proeminente, explicando-as como representantes psíquicas dos instintos primários (Klein, 1928). Os kleinianos distinguiram com uma consoante a “fantasy” consciente (elaborada), da  “phantasy” inconsciente, formada com inagens cruas e arcaicas, muitas vezes aterrorizantes (“no fundo do fogo, qual cinza de espanto”).
 
Mas é D.W. Winnicott que outorga à fantasia o caráter de ambiente com atributos não apenas visuais, como também auditivos, táteis, olfativos, gustativos e sinestésicos. Este autor entende a fantasia como “epaço transicional”, como “a terceira parte da vida de qualquer ser humano, parte que não podemos ignorar, que constitui uma área intermediária de experimentação, para a qual contribuem tanto a realidade interna quanto a vida externa. Trata-se de uma área que não é disputada porque nenhuma reivindicação é feita em seu nome, exceto que ela existe como lugar de repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas, ainda que inter-relacionadas... Estou, portanto, estudando a substância da ilusão” (Winnicott, 1971). Sob esta perspectiva, a fantasia transforma-se nessa reserva ambiental na qual as gazelas pulsionais têm onde correr e os flamingos da imaginação podem voar com liberdade. A fantasia, e com ela o brincar e a arte, adquirem, a partir da visão do psicanalista inglês, a qualidade de mundo habitável, abrigo para a mente peregrina. A fantasia experimentada é encarnada como experiência poética, como encontro íntimo da unidade na diversidade.
 
Passemos agora à palavra “fantasma”. A tradução da palavra francesa fantasme ao espanhol mudou a palavra “fantasia” por “fantasma”. Em muitas traduções de livros de psicanalistas franceses ao espanhol aparece este vocábulo que adquire, queiramos ou não, um tom sinistro ou pelo menos misterioso. Em espanhol, o fantasma é um ente sem corpo, uma aparição que nos surpreende e causa temor. Assim são qualificados os fantasmas descritos por Abraham e Torok, como personagens transgeracionais que fazem sua aparição no presente de uma vida qualquer, alterando seu relato consciente e seu destino (“no fundo do rio, como caranguejos verdes”).
 
A palavra “fantasma” é literária. Também nas teorizações de Lacan, sob o nome de “fantasma fundamental”, não mais assume o caráter de personagem, mas de roteiro literário que descreve uma cena na qual o sujeito se posiciona a partir do desejo do outro; trama inconsciente que levamos como um livro de bolso e que nos confere o gozo de um amuleto contra a má sorte (“Ou no fundo de mim, como fantasmas? ”, pergunta-se o poeta).
 
                Para além das precisões da linguagem e o deleite que isso proporciona, o interesse de todo psicanalista é: Como levar essas noções para a prática? Como incidir a partir delas no psiquismo de nossos paciente? Fazemos ecoar aqui a pergunta que se faz o poeta Octavio Paz na introdução de seu livro O arco e a lira: “não seria melhor transformar a vida em poesia e fazer poesia com a vida?” (Paz, O. , 1956). A aproximação de Freud ao conceito de fantasia como sonho diurno ou devaneio dá ao ser humano um cartão de acesso a outro mundo, criado por ele para a satisfação de seus desejos, sempre que esta viagem seja conduzida pela consciência (que depois atribuirá esta função ao Ego). Seja como construto infantil de um mundo paralelo, como sonho diurno cotidiano sem pretensões estéticas, ou como elaboração preciosista na literatura, a fantasia, deste ponto de vista, permite ao ser humano ampliar seu mundo interno e transformá-lo de maneira temporária e insuficiente, como quem vai ao cinema assistir a um filme e depois retorna à difícil realidade. Até aqui, podemos falar, em termos literários, de uma narrativa linear.
 
                Na concepção freudiana da fantasia inconsciente, depois retomada por Klein de forma substancial e substanciosa, a phantasy abre novos caminhos de compreensão das profundezas da alma humana. O trabalho psicanalítico torna-se surrealista e louco no melhor dos sentidos, e sua narrativa bebe nas fontes enigmáticas da representação para, apenas em um segundo momento, ser transladada ao processo secundário do pensamento. Esta maneira de pensar o psiquismo junto a noções tão importantes como a transferência, constrói a possibilidade de cura pela palavra. Narrativa e poesia confundem-se, fundem-se. A proposta conceitual de Winnicott de espaço transicional, depois enriquecida pela ideia de Bion de rêverie, proporcionam ao analista ferramentas de efetiva e profunda transformação. Entramos a fundo na experiência poética.
 
                Quando Lacan propõe, para liberar-nos de nosso malefício edípico, ingressar no território do simbólico, deixando para trás o plano do imaginário, propõe também, em palavras literárias, deixar para trás a narrativa e entrar na experiência poética. A noção lacaniana de “fantasma fundamental” nos introduz no universo do mito, que é poesia coletiva, mas que para ele constitui uma poesia coletiva internalizada como própria, subjetivada até o inconsciente e que lhe dá tanto uma posição, como também um gozo. A partir desta perspectiva, seu convite a “atravessar o fantasma” é uma liberação da sujeição do sujeito ao mito infantil. Como disse Oscar A. Paulucci referindo-se ao paciente: “Apenas a modificação da posição subjetiva no fantasma permitirá outros modos de satisfação com limitação do gozo e a abertura a outras formas de encenar a realidade” (Paulucci, 2005). É importante assinalar o uso que Lacan faz do sujeito gramatical, ou seja, daquele que executa a ação, primeira pessoa da qual é preciso que o paciente se apodere a través de seu encontro com o psicanalista. Na história da psicanálise, o caminho que vai da narrativa a experiência poética, seja em forma de poema vital ou de um novo mito, procura e consegue promover o encontro, ainda que por um instante, do sujeito com sua própria vida, essa humilde e efêmera liberdade que todos ansiamos.
 

 
Referências bibliográficas:
 
Freud, S. (1907), El poeta y los sueños diurnos, en Obras completas, Tomo II,          Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, España, 1973.
Freud, S. (1900), La interpretación de los sueños, en Obras Completas,Tomo II, Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, España, 1973.
Klein, M. (1928), “Estadios tempranos del conflicto edípico”, en Obras Completas, Tomo I, Editorial Paidós, España, 1990.
Lacan, J. “Subversión del sujeto y dialéctica del deseo”, en Escritos 1, Buenos Aires, Siglo XXI, 1985.
Paulucci, O. (2005) “De la fantasía en Freud al fantasma en Lacan”, en Rev. De Psicoanálisis, LXII; 4, pp 869-876, Buenos Aires, Argentina.
Paz, O. (1956), El arco y la lira, Fondo de Cultura Económica, Colombia 1998.
Rodríguez Núñez, V. (1982), poema “¿Dónde?, en el libro Con raro olor a mundo, Revista “Alforja”, México, 1998.
Winnicott, D.W. (1971), Realidad y juego, Editorial Gedisa, Barcelona, España, 1999.

 


[1] Tradução livre: “Aonde terão ido meus brinquedos/ os da corda gasta pela chuva? / Viverão/ no fundo do mar como náufragos/ no fundo do céu/ como clarão de vidro/ no fundo do rio como caranguejos verdes/ no fundo do fogo/ como cinza de espanto? / Ou no fundo de mim/ como fantasmas? ”
 
 


 
 

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