Sobre a Eficácia Psicanalítica

Dr. Héctor A. Krakov
 

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A questão que estimulou a escrita deste artigo foi a pergunta de Green com a frase “Do que se trata? ” em sua Conferência de Milão, após o 42º Congresso Internacional de Psicanálise.

Ele retomou a reflexão de Lacan (Lacan, 1977), no Seminário 24, ao final da sua obra. “Ainda estou interrogando a psicanálise a respeito de seu funcionamento. Como se trata de uma prática às vezes até eficaz?”

Apesar de ser verdade que o questionamento acerca da eficácia clínica da psicanálise tivesse legitimidade já nas ideias de Freud, desde um estágio bem inicial.  
           
Nesse sentido, é valiosa a frase incluída por James Strachey na “Nota Introdutória de Análise terminável e interminável”, em que Freud contou a Wilhelm Fliess, na Carta 133 da correspondência, o seguinte (Freud, 1950 [1985]: “A conclusão da cura para mim é essencialmente indiferente; embora decepcione bastante o profano”. 

A postura a respeito da cura foi expressa também nas obras sobre técnica e ao final da sua obra, em que ele demonstrou inúmeras vezes certo ceticismo a respeito da eficácia clínica da psicanálise.

Por exemplo, em “Recordar, repetir e elaborar” (Freud, 1914), ele afirma o seguinte:

Nessas circunstâncias, o médico precisa apenas esperar e permitir um curso que não pode ser evitado, mas não ter pressa (...) na prática, essa elaboração das resistências pode tornar-se uma tarefa árdua para o analisando e pôr à prova a paciência do médico (p. 157) (meu sublinhado).

Após apresentar esse resumo sucinto da postura de Freud a respeito da cura analítica, gostaria de ressaltar que ainda hoje a questão enquanto tema permanece pendente.

Não posso deixar de pensar que nessa fase do problema, e com os autores mencionados, inclusive Freud, conseguir dar uma “resposta possível” à questão não é tarefa simples. Implica ter de apelar para uma coragem enorme que estou disposto a oferecer.

Para começar, ao contrário do sujeito do inconsciente de raiz freudiano-lacaniana ligada à pulsão sexual, proponho outra noção que denomino de sujeito inconsciente.

Argumento que somos habitados por um “sujeito em progresso” que tem sua implantação impedida. Considero, de acordo com o Spaltung freudiano, como uma divisão da personalidade psíquica e também com a noção de verdadeiro self proposta por Winnicott.

Conforme afirmo na segunda metade da sequência gráfica de “Sameness and Otherness” (Mesmidade e Alteridade) (Krakov, 2005), nosso mundo mental não incluiria apenas objetos como propõe a estrutura psicanalítica geral. Mas, como extensão da metapsicologia clássica, os outros também estariam inscritos na vida psíquica em sua condição como tal. Dessa maneira, o conteúdo mental se constituiria de cenas em que o sujeito e os outros seriam habitantes naturais e protagonistas da psique, por direito legítimo.

O sujeito inconsciente é sempre ativo e tende a estabelecer relações interpessoais. Quando um paciente começa a análise, o sujeito inconsciente estará presente em todo o “processo analítico”, a partir do qual “falará” a partir do que fala e faz na sessão. Não estará de forma estática, mas dinâmica, em estilo de carrossel. Considero que essa é a maneira de a psicanálise “funcionar”, pois dependendo das proposições dos pacientes a nós, às vezes teremos de encarnar algum desses outros significativos e, outras vezes, o próprio sujeito.

O processamento psíquico, segundo penso, ocorre em dois estágios. Inicialmente, será desempenhado por meio de atos transferenciais com o analista. E apenas em um segundo momento, será possível abranger o que foi posto em ação por meio de pensamento reflexivo.

Na medida em que as cenas se repetem, na transferência, há uma trama e personagens, a pré-condição para mudança psíquica ocorrerá quando os pacientes, encarnando o “outro”, nos colocam em “seu lugar”. A modificação psíquica será o efeito da apropriação subjetiva da ação do analista diferente da que o paciente teve no passado, em que a cena repetitiva estabeleceu-se de modo experiencial. Apropriar-se do “agir diferente” permitirá, por abranger a soltura das âncoras e a movimentação, que a cena seja desarticulada e perca validade. Afirmo que essa apropriação não é uma nova identificação, dessa vez com o analista. O objetivo é que sob o efeito transferencial, o paciente consiga sair o lugar a partir do qual participou da cena.

Sublinho um aspecto essencial a considerar. Os pacientes não estão em posição de fazer um movimento subjetivo por conta própria. O “agir do outro” para desativar a repetição e favorecer a mudança subjetiva tem valor fundamental.

Em conclusão, postulo que a mudança psíquica se realizará na transferência, por meio de certa “ação” do analista. E o paciente deve ser capaz de apropriar-se dessa ação diferente na “cena” a serviço da mudança subjetiva.

Estou convencido que se trata disso!
 
Referências
Freud, S. (1950 [1892-99]), Extracts from the Fliess Papers. S.E. 1. London: The Hogarth Press. 
-- (1914), Remembering, repeating and working-through. S.E. 12. London: The Hogarth Press.
-- (1937), Analysis terminable and interminable. S.E. 33. London: The Hogarth Press.
Green, A. (2002), ¿What is about?. Journal of the Argentine Psychoanalytical Association. Volume LIX. N°2. 2002. Buenos Aires.
-- (2007), Repetition compulsion and the pleasure principle. Special lecture for the IPA Congress. (2007). Berlín.
Krakov, H. Sameness and otherness: Theoretical categories of an expanded metapsychology. Graphic Sequence, on line. (www.hectorkrakov.com)
-- (2018), ¿What is about? A possible answer. Buenos Aires: Waldhuter editors.
Lacan, J. (1977), Towards a new significant. Seminar 24.  Buenos Aires: Library J. Lacan. Class 13.

Tradução: Tania Mara Zalcberg
 

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