O corpo de Ulisses – Corpo de ‘persona’

Véra Savvaki, Ph.D.
 

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Diversas figurações na arte contemporânea demonstram que atualmente o corpo está se tornando um terreno de conflitos e de angústias nos limites do representável. A clínica nos confronta também com vivências corporais complexas, enigmáticas e violentas. Além das perturbações somatoformes, os diferentes eventos do corpo (doença, deficiência, gestação, puberdade, envelhecimento), assim como as modificações corporais voluntárias vêm questionar nossa escuta analítica. De um ponto de vista teórico-clínico, a psicanálise dispões de modelos para pensar o corpo: a conversão histérica. Eles se referem às patologias psicossomáticas bem como as teorizações interessantes de A. Lemma. Ora, trabalhando com sujeitos cujas problemáticas do corpo estão em primeiro plano, o corpo de Ulisses serviu com frequência como metáfora, para ilustrarmos a maneira pela qual o périplo identitário se exprime na relação do sujeito com seu corpo.

Se a guerra na Ilíada ocorreu no mundo exterior, a guerra na Odisseia se manifesta na realidade interna do herói. Descobrimos com surpresa que Ulisses poderia ter voltado bem rapidamente à Ítaca, mas que seu espírito oportunista, manipulador e astucioso o levou a outros lugares. Ulisses é ativo em – quase – tudo que lhe acontece. Seus monólogos e segundas intenções são plenos de cálculos, de estratagemas, de orgulho e de desconfiança. Parece que a situação mais difícil, na qual se condensa toda a ambivalência do herói, não é simplesmente o retorno à Ítaca, mas a revelação de sua identidade. Aliás, Atena, o equivalente divino de Ulisses, acompanha essa busca com metamorfoses astuciosas de seu corpo, disfarçando-o ora como um pobre mendigo, ora como um homem forte e belo.

As aventuras de Ulisses antes do retorno à Ítaca não ocorrem sob a forma de ação direta no tempo presente da narrativa, mas sob a forma de narração do próprio Ulisses no meio da obra. Chamada de ‘intercalação’ ou ‘narrativa intercalada’, a estrutura da Odisseia coloca em destaque a dimensão identitária da viagem. Com essa técnica, Ulisses ora vive a Odisseia, ora a narra, como se na busca de si mesmo, ele se autoconstruísse enquanto protagonista e narrador. Assim, o poeta, o narrador e o ator parecem produzir a obra em um movimento de tripla identificação – ou de tripla clivagem. Além do mais, Ulisses se apresenta sempre como um outro que, às vezes, ouviu falar de si mesmo ou que busca informações sobre o famoso herói, como se sua história lhe fosse inicialmente desconhecida. Existem boatos orais que viajam mais rápido do que ele; existem lembranças dos outros; ele pode assumir todas as formas; ele é ‘persona’. Nessas ficções, o que resta dele? Uma identidade e um corpo não serão suficientes para ele? Se Ulisses é seu próprio objeto perdido, poderia ser criado/ encontrado? 
Esses reencontros consigo mesmo acontecem entre os Feácios, quando náufrago e nu, Ulisses é recolhido por Nausícaa, vestido com suas roupas e levado ao palácio de Alcínoo. A acolhida e o encontro com o rei generoso produzem um efeito de sujeito: quase ‘re-nascido’, Ulisses narra, como um Aedo, sua própria Odisseia em todo o seu esplendor e recebe honrarias como herói de guerra e rei de Ítaca. À medida que o sobrevivente organiza sua narrativa, ele é reconstruído por ela, como se esta narração encapsulada servisse de revestimento psíquico em uma tentativa de tratamento do trauma. Se, em cada monstro e cada aventura se projetam suas partes psíquicas de regressão e ‘monstruosas’, já que não-integradas, Ulisses toma corpo graças ao poder de uma narrativa que reúne os pedaços de sua história no a posteriori e diante de um rei que o reconhece.

Ora, é em Ítaca que o corpo de Ulisses se torna verdadeiro protagonista e permite o reconhecimento último do herói. Primeiro, a governanta Euriclea reconhece seu senhor pela cicatriz de uma mordida de javali que o jovem Ulisses levara, quando havia ido caçar com seu avô. Em seguida, Argos, seu cão fiel, reconhece intuitivamente seu dono, exatamente antes de morrer, em uma cena particularmente emocionante. Em um terceiro momento, Ulisses é reconhecido por Penélope, seu equivalente feminino, tão astuciosa quanto ele, por uma prova de cumplicidade íntima. Nessas três cenas, descobrimos no corpo a inscrição duradoura dos instantes organizadores da vida psíquica: de um lado, a adolescência como ferida corporal ligada à primeira confrontação com a masculinidade, a transmissão e a morte; de outro, a evolução da atividade pulsional  ‘selvagem’ em direção a um domínio delicado de si mesmo e uma sucessão edipiana decidida. Finalmente, o encontro erótico com o alter-corpus e o segredo do leito-árvore no quarto conjugal se apresentam como último ‘signo’ de verdade e pedestal de ancoragem do sujeito.

Nesse trabalho de reconhecimento, o desafio da identidade, se desloca progressivamente da fala para o corpo e o outro. Se, no decorrer da Odisseia, o corpo de Ulisses não cessa de mudar de estado – ele é ferido, tratado, disfarçado, transformado em corpo desprezado ou embelezado –, quanto mais o herói se aproxima de Ítaca, mais esse corpo é tomado por sua realidade íntima. O retorno à Ítaca seria o sinônimo de um luto das imensas potencialidades de um Ego todo poderoso e só desejo? As marcas corporais iriam se tornar ocasiões para que o corpo fosse investido e falado novamente?

Surpreendentemente, Ulisses, esse herói pré-clássico, é profundamente moderno: sua personalidade não é tranquila, nem consensual, sua viagem é ambivalente – ao mesmo tempo errática e determinada –, e seu corpo – antes de seu reconhecimento final – é o corpo de ‘persona’, mergulhado em um jogo de aparências e de metamorfoses. Ao mesmo tempo, o trabalho de reconhecimento descrito na Odisseia ilustra a maneira pela qual as marcas na cartografia corporal podem servir de matéria prima para que o sujeito possa elaborar questões fundamentais para sua construção, como as origens, a vulnerabilidade, o pertencimento e a alteridade. Ora, por volta do final da obra, Ulisses nos deixa perplexos, quando anuncia à Penélope uma profecia a respeito de sua futura partida para novas aventuras. Situar o corpo – desconcertante até o fim! – seria, então, um trabalho paradoxal naquilo que nos convida a imaginar que outras formas tomará o que permanece fisicamente estranho, descontinuo e inadaptável.  

Traduzido por Marilei Jorge
 

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